Se eu fosse contar tudo, perderia muito tempo, o meu e o de vocês. Por isso, vamos aos fatos mais importantes. Eu gostava da Lauren, talvez gostar seja um eufemismo, mas enfim, era isso mesmo que vocês imaginam. Começou nos idos tempos da sétima série...Meu Deus! Dei-me conta que já estou no segundo ano de faculdade, isso dá um, dois, SEIS anos. Quanto tempo perdido. Tá nem tanto, só uns noventa porcento. Mas deixemos os números de lado e vamos ao que interessa. Partindo do princípio simples de que cada um deve exorcizar seus demônios, resolvi escrever sobre ela, os inúmeros acasos, descasos e tragédias desse drama do qual fui protagonista, ou não.
Bom, já falei que a coisa começou nos primórdios da sétima série. Provavelmente paixonite de começo de adolescência, mas durou, acreditem. Na sétima não aconteceu nada, não vou contar os não sei que ela disse, foram muitos durante toda a jornada, eles ocupariam todo o espaço da narrativa. Entrou a oitava e foi mais sem graça que sopa de hospital. Passou a oitava. Estávamos no ensino médio e eu já não era tão guri assim, tá bom que não era um exemplo de maturidade e tal, mas estava a frente de muita gente, mas não interessa. A verdade é que estávamos no ensino médio, fina flor da juventude do Bonja estudando no Ginásio. Ainda éramos colegas e, claro, eu gostava ainda mais dela (eu até falava que era um amor platônico), não sei se sinto saudades daqueles tempos ou repulsa. Pois bem, cidade pequena sempre tem festa de quinze anos, com o Bonja e com a Lauren não seria diferente. Ela debutaria no Clube 16 de Julho Juventude naquele ano e também começaria a namorar com o guri mais bambambam da escola. Eu? Ah! É mesmo , eu ainda era o mesmo Fábio panaca da sétima série, sempre no não sei e beirando, beirando o que mesmo? E aquele primeiro ano demorou, eu gostava ainda mais dela, mas também comecei a descobrir outros caminhos, ou seriam outras caminhadas? Bom, descobri que não existia somente ela do sexo oposto. Sim, me aventurei, pelo menos tentei, me aventurar por outra caminhadas. Não foram tortuosas essas outras caminhadas, aproveitei e aprendi algumas coisas. Mas a vidinha continuava do mesmo jeito o A que gostava de B que estava com C e ainda por cima não gostava de A. Então surgiu a luz no fim do túnel, ela não namorava mais. Seria eu o próximo! Seria eu o próximo? Tentei mais uma vez. Lembro da noite na qual a levei em casa naquele último dia de novembro de 2004. Caminhávamos nós dois pela travessa Zero Hora (esse é mesmo o nome da rua), um ao lado do outro, conversávamos sobre alguma coisa, não lembro o que era. Lembro que era naquela hora. Olhei pra cima, pedi ajuda pra Deus, nós andávamos meio unidos naqueles tempos, só agora me dei conta, olhei pro céu e disse:
- Mais um dia se foi e ainda não fiquei contigo.
Caguei, caguei, caguei.
- Pois é, ela respondeu.
Não sabia onde me enfiar. Puta-que-os-pariu. Chegamos na frente da casa dela. Eu só me xingava. Ò burrice cruel. Ela estava bonita, talvez só achasse ela tão bonita uns quatro ano mais tarde quando a visse de relance em uma festa. Eu era o mesmo, sem graça, magricela, cabelo grande e de mão no bolso, o retrato do derrotado.
- Tenho que entrar.
- Tá, até mais.
Era um Sábado. Aquele dia dormi escutando Patience, do Guns.
Dois dias depois, quando voltávamos juntos da aula e paramos na esquina do Planalto (restaurante onde ela almoçava), pedi pra ficar com ela. Deveria ser décima sétima vez que eu fazia aquilo. Ela respondeu quem sabe. Poxa! Não era um não sei, havia uma esperança naquele quem sabe. Fiquei o dia inteiro criando, ou fazendo crescer, as esperanças. No outro dia perguntei no meio de uma aula de Educação Artística:
- Aquele quem sabe era mais pra sim ou não.
Silêncio.
A derrota era eminente. Previa meu mais novo fracasso. Sou um derrotado nato, deveria comentar isso no começo da narrativa, desculpem. Então ela respondeu:
- Mais pra sim.
Pela primeira vez em três anos eu estava perto da vitória, perto do objetivo que mais persegui durante a adolescência, do apogeu das minhas quase conquistas.
- Oh!
Foram essas duas letras idiotas que consegui pronunciar naquele momento. É desnecessário contar que um dia depois levei um fora e fiquei as férias inteiras mal. Assim foi o primeiro ano das grandes derrotas.
Foi no outro ano que o termo “animal” surgiu entre meus amigos. Talvez esse termo tenha sido o mais correto para denominar o que fiz, passei e senti naquele ano. Agora vou escrever pela primeira vez sobre um dos fatos mais trágicos que passei na minha adolescência frustrada: O Acampamento. Escrevo com letras maiúsculas porque esse episódio foi um divisor de águas na vida desse ser que escreve e mal, por sinal. Tomo a liberdade de escrever o nome dos três seres que me acompanharam nessa viagem ao centro da terra (Júlio Verne que me perdoe): Fernando, meu amigo há mais tempo, conhecedor de todos os caminhos e descaminhos que a obsessão Lauren tomou, também tinha seus motivos para a indiada, talvez motivos até mais nobres que o meu. Luis Fabiano, colega e amigo, não sei o porque de sua ida té hoje, mas enfim. Moisés, colega e pseudo-amigo, com certeza e é a primeira vez que escrevo a palavra certeza nessas duas folhas, o motivo de nossa total ferração no tal acampamento. Tenho necessidade de situar o leitor nessa história na qual o espaço tem função de personagem, ou até mesmo protagonista. Saímos de Bom Jesus, nordeste do estado, com um ônibus, que estava com pelo menos noventa porcento das pessoas que não gostávamos , e fomos parar em Dom Pedrito, fronteira com o Uruguai. Talvez o leitor não tenha noção do tamanho dessa odisséia terrestre (Júlio Verne que me perdoe novamente), mas atravessamos o estado do Rio Grande do Sul, viajamos por doze horas e você que não deve ser um leitor burro já sabe porque de toda essa jornada. Sim, ela. O lugar era terrível, as pessoas que estavam nele eram piores, e tudo deu errado. Tudo! Montamos a barraca no meio de um monte de merda, eu e o Fernando tivemos que dormir na área da barraca, pois o Fabiano e o Moisés ocuparam os quartos. Durante o dia o calor era insuportável e durante a noite o frio era de encarangar. Na primeira noite, os nossos pseudo-companheiros de acampamento quase derrubaram a nossa barraca, levei um tijolaço na cabeça que até hoje não sei como não senti, pois estava dormindo. Passada primeira noite, juntados os mortos e os feridos, o Fernando tomou uma iniciativa, iríamos trocar a barraca de lugar, desmontar, montar e procurar um lugar ao sol (agora é a Érico que peço desculpas). Passamos um dia relativamente calmo, mas a noite foi terrível, quase apanhamos com uma colher de pau, alguns caras queriam mandar nas nossas coisas, nas nossas atitudes e nos nossos passos. Absolutismo contra o qual lutamos, tá bom que um pouco cagados, mas lutamos, os outros caras implicaram com a gente por causa do Tio Musa, quero acreditar nisso, que era, e ainda é, um ogro em pele de gente, nos metemos nas maiores confusões e os outros, e as outras, ainda riam da nossa cara. Naqueles dois dias de sofrimento entendi realmente o sentido das palavras injustiça e azar. Mas ainda não contei o maior motivo de nossas decepções, pelo menos as minhas e as do Fernando, vou contar essa parte agora.
O motivo pelo qual fomos estava claro. Só que ficamos sem esses motivos no primeiro quilômetro da nossa jornada. A Lauren ficou com um cara que o apelido era Boceta, imaginem a beleza da criatura. E o motivo do Fernando simplesmente o ignorou. Depois de três dias em terreno inimigo, um dia de viagem e uma bagagem de coisas ruins, numa madrugada de Domingo para Segunda, chegamos ao Bonja. Descemos do ônibus, juntamos nossas coisas o mais rápido possível, saímos caminhando na chuva fina que caia na cidade. Chegamos até a esquina do Baggio, ponto no qual sempre parávamos para conversar, não interessava o dia, o tempo, a hora. Eu e o Fernando nos olhamos. Não trocamos uma palavra. Ele seguiu reto e eu dobrei a esquina. Foi o fim de uma era.
Os acontecimentos do resto daquele ano foram ruins, claro que não consegui ficar com a Lauren, o Fernando também não teve muita sorte com a outra guria. Talvez tenha sido o pior ano de nossas vidas, mas ele não duraria pra sempre.
Em 2006 o Fernando já estava em Porto Alegre. Eu continuava no Bonja e na mesma, na mesma não. Distribuí um pouco as minhas tentativas, fiquei com outras gurias, mas o objetivo cego ainda era a Lauren. Quando terceiro ano começou, bati na trave, estive mais perto de ficar com ela do que naquela noite de novembro. Chegar perto não é conseguir, se faltar um passo que seja, ainda falta. Não consegui naquele começo de ano e pela primeira vez em cinco anos deixei a Lauren um pouco de lado. Acho que nesse momento eu deveria escrever um pouco sobre a Recilia e de como ela surgiu. Ela me deu alguns foras, mas ficamos e, acreditem, namoramos. Continuei gostando da Lauren durante esse pseudo-namoro, mas estava um pouco de lado. Quando chegou agosto, eu tive que fazer o ENEM, minha mãe queria que eu passasse, minha irmã queria que eu passasse e meu pai, bom, ele nem sabia se eu iria fazer a prova. Se eu passasse eu poderia conseguir uma bolsa, seria o único jeito de um guri chinelo como eu entrar na faculdade. Um dia antes da prova eu estava mal, sabia que ia me fuder, o que eu faria da vida? Trabalharia o resto da minha vida na prefeitura como meu pai? Iria colher maçã ou batata como a maioria da população? Viraria um vagabundo? Decepcionaria a fé excessiva da minha mãe e da minha irmã? Assumiria definitivamente meu papel de fracassado e derrotado? Perguntas e mais perguntas. Eu estava com a Recilia nesse dia. Estava desesperado. Conversei com ela e lá pelas tantas chorei. Porra! Era a única chance que eu tinha de ser alguém e sair daquele lugar totalmente adverso a mim.
Não posso negar, a guria me deu o maior apoio. Disse que se eu não passasse não era o fim do mundo, que ano que vem tinha de novo.Talvez tenha sido o único momento de sinceridade entre nós. No outro dia fui fazer a prova. Viagem sem sofrimento até Caxias. Minha turma inteira foi, a Lauren também. Lembro que eu levei Quincas Borba pra ler durante a viagem e que o Fabiano foi sentado ao meu lado. Chegamos lá atrasados, quase perdi a prova, cinco horas depois saí e saí com a certeza de que tinha me ralado. Fomos jantar. Depois de comer, lembro com a maior nitidez possível, chamei a Lauren e perguntei se ela achava que eu estava feliz. Ela não soube o que responder, começou a me perguntar se eu não estava, qual era o problema. Respondi que não, que ainda gostava dela, que havia cinco anos que tentava ficar com ela e só levava fora, que ninguém tinha feito mais que eu, que ninguém merecia mais que eu. Paramos de conversar, a volta estava começando. Como todo mundo estava aliviado por se livrar da prova e o trago ajudava ainda mais nesse processo de conquistar o alívio, a volta foi alegre. Eu ainda estava ao lado do Fabiano, pelo menos até resolver ir para o fundo do ônibus. Apesar de estar no fundo, me mantive um pouco isolado da fulia. Vi a Lauren do outro lado, nossa conversa estava inacabada, pensei. Fui para o lado dela. No começo disfarcei, escorei meu braço no banco, ela se escorou no meu braço, abracei-a, depois de algum tempo soltei. Sentei no banco de trás dela. Ela caiu no meu colo, disse que estava com sono e iria dormir um pouco ali. Meu lado de humilhado, de homem sem vergonha e derrotado buscando vingança dizia que eu tinha que agarrá-la, que era aquele o momento do triunfo. Mas meu lado honesto venceu, ou melhor, me derrotou. Pensei na minha quase namorada que tinha me apoiado um dia antes, pensei que eu não queria me aproveitar da guria, pensei, pensei e pensei demais. A ignorância é uma benção, se eu não tivesse pensado tanto...
Os meses passaram e perdi a chance, a namorada e as esperanças de passar na porra do ENEM. De outubro a fim de novembro minha vida se baseava em acordar, ir para a escola, almoçar, esquentar um café, pegar um dos sete volumes do Tempo e o Vento, sentar no vaso, ler, levantar. Limpar a bunda, lavar as mãos, escovar os dentes, deitar, dormir, acordar, ir jogar no Grupo, voltar, tomar banho, esquentar o café, ler, dormir, levantar e começar tudo de novo. Em uma Quinta-feira, eu prosseguia na minha rotina, quando, na hora do sono, o telefone tocou. Era minha mãe. Há alguns dias ela pedia os números dos meus documentos para ver minhas notas do ENEM, claro que eu sempre “esquecia” de entregar, um dia ela pegou os documentos e viu minhas notas, foi esse dia que ela ligou.
-Bah meu filho, vi tuas notas na internet.
Eu pronto pra mijada, decepção de mãe é uma das piores coisas da vida de um ser humano, sem nenhum entusiasmo perguntei:
- E aí?
- Tu passou.
- Quê?
- Passou.
Inacreditável, mas passei, era uma Quinta-feira, não vou mais esquecer. Na noite desse dia fui a um jogo com o Croco, figura que eu não poderia deixar de falar, não tem nada a ver com a Lauren e o resto, mas é uma grande figura.
No outro dia, fui pra aula um pouco mais aliviado. Nossa turma estava deixando a escola, teria um churrasco no Sábado, estavam combinando. Como eu tinha aula de Literatura, não dei muita bola. Naquela aula a professora passou O Auto da Compadecida. Lembro que foi a última vez que entrei na sala de vídeo da escola. Fui um dos primeiros a sentar pra ver o filme. A Lauren e a Greicy, melhor amiga dela que não citei até agora, sentaram ao meu lado. Apesar de ver o filme umas cinco vezes, eu estava prestando atenção. Quando a aula acabou, a Greicy disse que queria falar comigo. Nem dei bola. Peguei meu material e fui pra casa, afinal eu tinha que almoçar, esquentar o café, sentar no vaso, ler... E ainda tinha jogo às cinco. Dormi até às cinco da tarde. Acordei com a minha mãe chegando e me pedindo para ir comprar pão. Fui, voltei e fui jogar. Não joguei tão mal aquele dia. Depois que sai do Grupo deu um temporal. Fiquei em casa até o outro dia. Meu pai, nos sábados à tarde, tinha a mania de ver os jogos da segundona, eu via junto. Grande figura o Pita, no intervalo ele pedia que a mana fizesse o café e eu fosse comprar pão. Naquele Sábado foi a mesma coisa. Depois do café, do jogo e da tarde, o Fabiano me ligou, ele queria ir no tal churrasco, perguntou se eu ia (pra variar eu estava pelado), disse que sim. Uma hora depois ele chegou lá em casa e fomos. Chegamos e, é claro, ela estava lá. Sentei em um canto e fiquei só ouvindo as conversas. Então a Greicy veio falar comigo.
-Tu e uma pessoa podiam ficar hoje, né?
-É, mas não depende só de mim.
-Mas a outra parte eu garanto.
O mundo gira, gira, gira e volta pro mesmo lugar, advinhem o que eu falei.
-Oh!
Eu não bebia, mas aquele dia era uma exceção. Bebi até ficar um pouco tonto. Na hora de comer, dei um jeito de sair. Peguei os míseros cinco reais que a mãe tinha me dado e fui comprar um refri. Lembro que caminhava meio tonto pela rua. Cheguei na praça e comprei o tal refri, que por sinal acabou com as minhas poucas finanças, com o um e cinquenta que sobrou comprei um chiclé, Trident gosto de pasta de dente, não esqueço. Voltei pro churrasco com o refri. Todo mundo estava comendo, não comi nada. O Fabiano estava de camioneta , esqueci de falar que o Tio Musa estava junto com nós dois. Pedi que o Fabiano me desse uma carona até em casa, precisava pegar uma blusa. Quando entramos na camioneta falei pros dois:
- Acho que vou pegar a Lauren.
- Você tá sempre pegando, disse o Tio Musa.
Expliquei a situação. Eles também achavam que eu pegava. Eu queria contar pro Fernando o acontecido, mas não deu. Fui em casa, escovei os dentes e voltei. Todo mundo que estava no churrasco resolveu ir para a praça. Eu e a Lauren fomos junto com o Fabiano. Pra ser sincero, eu achava que a coisa bateria na trave de novo, o cara leva uns tombos e aprende a desconfiar. Mas quando nós estávamos na camioneta do Fabiano ela se agarrou em mim e pegou na minha mão com força, não tive mais dúvidas. Paramos finalmente na praça, todos desceram, alguns foram embora, eu e ela esperamos. Quando ela decidiu ir embora eu sabia, os cinco anos convergiram para aquele momento. Fui junto com ela. Na frente da igreja peguei na mão dela. Fomos até a área do Seu Barbosa, lugar que o Fernando descobriu como sendo o melhor para ficar com uma guria. Sentamos. Ela estava com uma blusa preta, sapatos pretos e calça jeans e claro que estava bonita.
Ela ajeitou o cabelo. Eu sabia que era agora, que não tinha volta, que o resultado das coisas que o guri da sétima, da oitava, do primeiro, do segundo, do terceiro tinha feito, que as tentativas frustradas, que as humilhações, que as decepções, que tudo acabaria ali. Peguei no rosto dela e beijei.
Acabou.
*Título roubado de Érico Verissimo.
Bom, já falei que a coisa começou nos primórdios da sétima série. Provavelmente paixonite de começo de adolescência, mas durou, acreditem. Na sétima não aconteceu nada, não vou contar os não sei que ela disse, foram muitos durante toda a jornada, eles ocupariam todo o espaço da narrativa. Entrou a oitava e foi mais sem graça que sopa de hospital. Passou a oitava. Estávamos no ensino médio e eu já não era tão guri assim, tá bom que não era um exemplo de maturidade e tal, mas estava a frente de muita gente, mas não interessa. A verdade é que estávamos no ensino médio, fina flor da juventude do Bonja estudando no Ginásio. Ainda éramos colegas e, claro, eu gostava ainda mais dela (eu até falava que era um amor platônico), não sei se sinto saudades daqueles tempos ou repulsa. Pois bem, cidade pequena sempre tem festa de quinze anos, com o Bonja e com a Lauren não seria diferente. Ela debutaria no Clube 16 de Julho Juventude naquele ano e também começaria a namorar com o guri mais bambambam da escola. Eu? Ah! É mesmo , eu ainda era o mesmo Fábio panaca da sétima série, sempre no não sei e beirando, beirando o que mesmo? E aquele primeiro ano demorou, eu gostava ainda mais dela, mas também comecei a descobrir outros caminhos, ou seriam outras caminhadas? Bom, descobri que não existia somente ela do sexo oposto. Sim, me aventurei, pelo menos tentei, me aventurar por outra caminhadas. Não foram tortuosas essas outras caminhadas, aproveitei e aprendi algumas coisas. Mas a vidinha continuava do mesmo jeito o A que gostava de B que estava com C e ainda por cima não gostava de A. Então surgiu a luz no fim do túnel, ela não namorava mais. Seria eu o próximo! Seria eu o próximo? Tentei mais uma vez. Lembro da noite na qual a levei em casa naquele último dia de novembro de 2004. Caminhávamos nós dois pela travessa Zero Hora (esse é mesmo o nome da rua), um ao lado do outro, conversávamos sobre alguma coisa, não lembro o que era. Lembro que era naquela hora. Olhei pra cima, pedi ajuda pra Deus, nós andávamos meio unidos naqueles tempos, só agora me dei conta, olhei pro céu e disse:
- Mais um dia se foi e ainda não fiquei contigo.
Caguei, caguei, caguei.
- Pois é, ela respondeu.
Não sabia onde me enfiar. Puta-que-os-pariu. Chegamos na frente da casa dela. Eu só me xingava. Ò burrice cruel. Ela estava bonita, talvez só achasse ela tão bonita uns quatro ano mais tarde quando a visse de relance em uma festa. Eu era o mesmo, sem graça, magricela, cabelo grande e de mão no bolso, o retrato do derrotado.
- Tenho que entrar.
- Tá, até mais.
Era um Sábado. Aquele dia dormi escutando Patience, do Guns.
Dois dias depois, quando voltávamos juntos da aula e paramos na esquina do Planalto (restaurante onde ela almoçava), pedi pra ficar com ela. Deveria ser décima sétima vez que eu fazia aquilo. Ela respondeu quem sabe. Poxa! Não era um não sei, havia uma esperança naquele quem sabe. Fiquei o dia inteiro criando, ou fazendo crescer, as esperanças. No outro dia perguntei no meio de uma aula de Educação Artística:
- Aquele quem sabe era mais pra sim ou não.
Silêncio.
A derrota era eminente. Previa meu mais novo fracasso. Sou um derrotado nato, deveria comentar isso no começo da narrativa, desculpem. Então ela respondeu:
- Mais pra sim.
Pela primeira vez em três anos eu estava perto da vitória, perto do objetivo que mais persegui durante a adolescência, do apogeu das minhas quase conquistas.
- Oh!
Foram essas duas letras idiotas que consegui pronunciar naquele momento. É desnecessário contar que um dia depois levei um fora e fiquei as férias inteiras mal. Assim foi o primeiro ano das grandes derrotas.
Foi no outro ano que o termo “animal” surgiu entre meus amigos. Talvez esse termo tenha sido o mais correto para denominar o que fiz, passei e senti naquele ano. Agora vou escrever pela primeira vez sobre um dos fatos mais trágicos que passei na minha adolescência frustrada: O Acampamento. Escrevo com letras maiúsculas porque esse episódio foi um divisor de águas na vida desse ser que escreve e mal, por sinal. Tomo a liberdade de escrever o nome dos três seres que me acompanharam nessa viagem ao centro da terra (Júlio Verne que me perdoe): Fernando, meu amigo há mais tempo, conhecedor de todos os caminhos e descaminhos que a obsessão Lauren tomou, também tinha seus motivos para a indiada, talvez motivos até mais nobres que o meu. Luis Fabiano, colega e amigo, não sei o porque de sua ida té hoje, mas enfim. Moisés, colega e pseudo-amigo, com certeza e é a primeira vez que escrevo a palavra certeza nessas duas folhas, o motivo de nossa total ferração no tal acampamento. Tenho necessidade de situar o leitor nessa história na qual o espaço tem função de personagem, ou até mesmo protagonista. Saímos de Bom Jesus, nordeste do estado, com um ônibus, que estava com pelo menos noventa porcento das pessoas que não gostávamos , e fomos parar em Dom Pedrito, fronteira com o Uruguai. Talvez o leitor não tenha noção do tamanho dessa odisséia terrestre (Júlio Verne que me perdoe novamente), mas atravessamos o estado do Rio Grande do Sul, viajamos por doze horas e você que não deve ser um leitor burro já sabe porque de toda essa jornada. Sim, ela. O lugar era terrível, as pessoas que estavam nele eram piores, e tudo deu errado. Tudo! Montamos a barraca no meio de um monte de merda, eu e o Fernando tivemos que dormir na área da barraca, pois o Fabiano e o Moisés ocuparam os quartos. Durante o dia o calor era insuportável e durante a noite o frio era de encarangar. Na primeira noite, os nossos pseudo-companheiros de acampamento quase derrubaram a nossa barraca, levei um tijolaço na cabeça que até hoje não sei como não senti, pois estava dormindo. Passada primeira noite, juntados os mortos e os feridos, o Fernando tomou uma iniciativa, iríamos trocar a barraca de lugar, desmontar, montar e procurar um lugar ao sol (agora é a Érico que peço desculpas). Passamos um dia relativamente calmo, mas a noite foi terrível, quase apanhamos com uma colher de pau, alguns caras queriam mandar nas nossas coisas, nas nossas atitudes e nos nossos passos. Absolutismo contra o qual lutamos, tá bom que um pouco cagados, mas lutamos, os outros caras implicaram com a gente por causa do Tio Musa, quero acreditar nisso, que era, e ainda é, um ogro em pele de gente, nos metemos nas maiores confusões e os outros, e as outras, ainda riam da nossa cara. Naqueles dois dias de sofrimento entendi realmente o sentido das palavras injustiça e azar. Mas ainda não contei o maior motivo de nossas decepções, pelo menos as minhas e as do Fernando, vou contar essa parte agora.
O motivo pelo qual fomos estava claro. Só que ficamos sem esses motivos no primeiro quilômetro da nossa jornada. A Lauren ficou com um cara que o apelido era Boceta, imaginem a beleza da criatura. E o motivo do Fernando simplesmente o ignorou. Depois de três dias em terreno inimigo, um dia de viagem e uma bagagem de coisas ruins, numa madrugada de Domingo para Segunda, chegamos ao Bonja. Descemos do ônibus, juntamos nossas coisas o mais rápido possível, saímos caminhando na chuva fina que caia na cidade. Chegamos até a esquina do Baggio, ponto no qual sempre parávamos para conversar, não interessava o dia, o tempo, a hora. Eu e o Fernando nos olhamos. Não trocamos uma palavra. Ele seguiu reto e eu dobrei a esquina. Foi o fim de uma era.
Os acontecimentos do resto daquele ano foram ruins, claro que não consegui ficar com a Lauren, o Fernando também não teve muita sorte com a outra guria. Talvez tenha sido o pior ano de nossas vidas, mas ele não duraria pra sempre.
Em 2006 o Fernando já estava em Porto Alegre. Eu continuava no Bonja e na mesma, na mesma não. Distribuí um pouco as minhas tentativas, fiquei com outras gurias, mas o objetivo cego ainda era a Lauren. Quando terceiro ano começou, bati na trave, estive mais perto de ficar com ela do que naquela noite de novembro. Chegar perto não é conseguir, se faltar um passo que seja, ainda falta. Não consegui naquele começo de ano e pela primeira vez em cinco anos deixei a Lauren um pouco de lado. Acho que nesse momento eu deveria escrever um pouco sobre a Recilia e de como ela surgiu. Ela me deu alguns foras, mas ficamos e, acreditem, namoramos. Continuei gostando da Lauren durante esse pseudo-namoro, mas estava um pouco de lado. Quando chegou agosto, eu tive que fazer o ENEM, minha mãe queria que eu passasse, minha irmã queria que eu passasse e meu pai, bom, ele nem sabia se eu iria fazer a prova. Se eu passasse eu poderia conseguir uma bolsa, seria o único jeito de um guri chinelo como eu entrar na faculdade. Um dia antes da prova eu estava mal, sabia que ia me fuder, o que eu faria da vida? Trabalharia o resto da minha vida na prefeitura como meu pai? Iria colher maçã ou batata como a maioria da população? Viraria um vagabundo? Decepcionaria a fé excessiva da minha mãe e da minha irmã? Assumiria definitivamente meu papel de fracassado e derrotado? Perguntas e mais perguntas. Eu estava com a Recilia nesse dia. Estava desesperado. Conversei com ela e lá pelas tantas chorei. Porra! Era a única chance que eu tinha de ser alguém e sair daquele lugar totalmente adverso a mim.
Não posso negar, a guria me deu o maior apoio. Disse que se eu não passasse não era o fim do mundo, que ano que vem tinha de novo.Talvez tenha sido o único momento de sinceridade entre nós. No outro dia fui fazer a prova. Viagem sem sofrimento até Caxias. Minha turma inteira foi, a Lauren também. Lembro que eu levei Quincas Borba pra ler durante a viagem e que o Fabiano foi sentado ao meu lado. Chegamos lá atrasados, quase perdi a prova, cinco horas depois saí e saí com a certeza de que tinha me ralado. Fomos jantar. Depois de comer, lembro com a maior nitidez possível, chamei a Lauren e perguntei se ela achava que eu estava feliz. Ela não soube o que responder, começou a me perguntar se eu não estava, qual era o problema. Respondi que não, que ainda gostava dela, que havia cinco anos que tentava ficar com ela e só levava fora, que ninguém tinha feito mais que eu, que ninguém merecia mais que eu. Paramos de conversar, a volta estava começando. Como todo mundo estava aliviado por se livrar da prova e o trago ajudava ainda mais nesse processo de conquistar o alívio, a volta foi alegre. Eu ainda estava ao lado do Fabiano, pelo menos até resolver ir para o fundo do ônibus. Apesar de estar no fundo, me mantive um pouco isolado da fulia. Vi a Lauren do outro lado, nossa conversa estava inacabada, pensei. Fui para o lado dela. No começo disfarcei, escorei meu braço no banco, ela se escorou no meu braço, abracei-a, depois de algum tempo soltei. Sentei no banco de trás dela. Ela caiu no meu colo, disse que estava com sono e iria dormir um pouco ali. Meu lado de humilhado, de homem sem vergonha e derrotado buscando vingança dizia que eu tinha que agarrá-la, que era aquele o momento do triunfo. Mas meu lado honesto venceu, ou melhor, me derrotou. Pensei na minha quase namorada que tinha me apoiado um dia antes, pensei que eu não queria me aproveitar da guria, pensei, pensei e pensei demais. A ignorância é uma benção, se eu não tivesse pensado tanto...
Os meses passaram e perdi a chance, a namorada e as esperanças de passar na porra do ENEM. De outubro a fim de novembro minha vida se baseava em acordar, ir para a escola, almoçar, esquentar um café, pegar um dos sete volumes do Tempo e o Vento, sentar no vaso, ler, levantar. Limpar a bunda, lavar as mãos, escovar os dentes, deitar, dormir, acordar, ir jogar no Grupo, voltar, tomar banho, esquentar o café, ler, dormir, levantar e começar tudo de novo. Em uma Quinta-feira, eu prosseguia na minha rotina, quando, na hora do sono, o telefone tocou. Era minha mãe. Há alguns dias ela pedia os números dos meus documentos para ver minhas notas do ENEM, claro que eu sempre “esquecia” de entregar, um dia ela pegou os documentos e viu minhas notas, foi esse dia que ela ligou.
-Bah meu filho, vi tuas notas na internet.
Eu pronto pra mijada, decepção de mãe é uma das piores coisas da vida de um ser humano, sem nenhum entusiasmo perguntei:
- E aí?
- Tu passou.
- Quê?
- Passou.
Inacreditável, mas passei, era uma Quinta-feira, não vou mais esquecer. Na noite desse dia fui a um jogo com o Croco, figura que eu não poderia deixar de falar, não tem nada a ver com a Lauren e o resto, mas é uma grande figura.
No outro dia, fui pra aula um pouco mais aliviado. Nossa turma estava deixando a escola, teria um churrasco no Sábado, estavam combinando. Como eu tinha aula de Literatura, não dei muita bola. Naquela aula a professora passou O Auto da Compadecida. Lembro que foi a última vez que entrei na sala de vídeo da escola. Fui um dos primeiros a sentar pra ver o filme. A Lauren e a Greicy, melhor amiga dela que não citei até agora, sentaram ao meu lado. Apesar de ver o filme umas cinco vezes, eu estava prestando atenção. Quando a aula acabou, a Greicy disse que queria falar comigo. Nem dei bola. Peguei meu material e fui pra casa, afinal eu tinha que almoçar, esquentar o café, sentar no vaso, ler... E ainda tinha jogo às cinco. Dormi até às cinco da tarde. Acordei com a minha mãe chegando e me pedindo para ir comprar pão. Fui, voltei e fui jogar. Não joguei tão mal aquele dia. Depois que sai do Grupo deu um temporal. Fiquei em casa até o outro dia. Meu pai, nos sábados à tarde, tinha a mania de ver os jogos da segundona, eu via junto. Grande figura o Pita, no intervalo ele pedia que a mana fizesse o café e eu fosse comprar pão. Naquele Sábado foi a mesma coisa. Depois do café, do jogo e da tarde, o Fabiano me ligou, ele queria ir no tal churrasco, perguntou se eu ia (pra variar eu estava pelado), disse que sim. Uma hora depois ele chegou lá em casa e fomos. Chegamos e, é claro, ela estava lá. Sentei em um canto e fiquei só ouvindo as conversas. Então a Greicy veio falar comigo.
-Tu e uma pessoa podiam ficar hoje, né?
-É, mas não depende só de mim.
-Mas a outra parte eu garanto.
O mundo gira, gira, gira e volta pro mesmo lugar, advinhem o que eu falei.
-Oh!
Eu não bebia, mas aquele dia era uma exceção. Bebi até ficar um pouco tonto. Na hora de comer, dei um jeito de sair. Peguei os míseros cinco reais que a mãe tinha me dado e fui comprar um refri. Lembro que caminhava meio tonto pela rua. Cheguei na praça e comprei o tal refri, que por sinal acabou com as minhas poucas finanças, com o um e cinquenta que sobrou comprei um chiclé, Trident gosto de pasta de dente, não esqueço. Voltei pro churrasco com o refri. Todo mundo estava comendo, não comi nada. O Fabiano estava de camioneta , esqueci de falar que o Tio Musa estava junto com nós dois. Pedi que o Fabiano me desse uma carona até em casa, precisava pegar uma blusa. Quando entramos na camioneta falei pros dois:
- Acho que vou pegar a Lauren.
- Você tá sempre pegando, disse o Tio Musa.
Expliquei a situação. Eles também achavam que eu pegava. Eu queria contar pro Fernando o acontecido, mas não deu. Fui em casa, escovei os dentes e voltei. Todo mundo que estava no churrasco resolveu ir para a praça. Eu e a Lauren fomos junto com o Fabiano. Pra ser sincero, eu achava que a coisa bateria na trave de novo, o cara leva uns tombos e aprende a desconfiar. Mas quando nós estávamos na camioneta do Fabiano ela se agarrou em mim e pegou na minha mão com força, não tive mais dúvidas. Paramos finalmente na praça, todos desceram, alguns foram embora, eu e ela esperamos. Quando ela decidiu ir embora eu sabia, os cinco anos convergiram para aquele momento. Fui junto com ela. Na frente da igreja peguei na mão dela. Fomos até a área do Seu Barbosa, lugar que o Fernando descobriu como sendo o melhor para ficar com uma guria. Sentamos. Ela estava com uma blusa preta, sapatos pretos e calça jeans e claro que estava bonita.
Ela ajeitou o cabelo. Eu sabia que era agora, que não tinha volta, que o resultado das coisas que o guri da sétima, da oitava, do primeiro, do segundo, do terceiro tinha feito, que as tentativas frustradas, que as humilhações, que as decepções, que tudo acabaria ali. Peguei no rosto dela e beijei.
Acabou.
*Título roubado de Érico Verissimo.
3 comentários:
Bem, ai vai um comentário de quem acompanhou boa parte da jornada e algumas vezes até participou dela.
Pretendo ser claro e simples, como todo comentarista deve ser.
Primeiro quero dizer que é uma pena que o blog não tenha espaço para mais palavras, pois a história ta bem reduzida.
E, sim, é tudo verdade. Cinco anos de perseguição, quase nenhuma vitória.
E o pior é que o objetivo principal de relembrar tudo isso não foi atingido(eu acho), pois quem tinha que interpertar do jeito certo não o fez.
Bem, a história não terminou. Desconfio que vai render muitas páginas ainda. Era isso.
Eu topo continuar sabendo o que veio depois do acabou.
Depois do acabou, acabou mesmo.
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