A volta das últimas férias foi um tanto sofrida. Cinco da tarde de um domingo, dia e hora que já são tristes , ainda mais em um último domingo de férias. Eu e minha mãe caminhávamos lado a lado. Silêncio. Íamos para a baita rodoviária do Bonja que, se você não saber realmente onde é, passa batido. O ônibus não tinha chegado e aquela espera estava triste, como estava. Lá, no silêncio natural que algum dia chega aos relacionamentos entre pais e filhos, eu me revirava por dentro. Já não tinha mais tanta certeza de que gostaria de voltar para aquela cidade. O problema de toda ida ao Bonja é que todo o entusiasmo que existe durante o tempo que antecede a ida, se vai nas primeiras três horas de Bonja. Nessas três horas você visita todos os parentes, vai em todos os lugares, reve todas as pessoas, inclusive as que você não quer, enfim, faz tudo que tem para fazer. Eu pensava que não se podia viver em um lugar assim. Sabem né, aqueles conflitos exsitenciais que aparecem nessas horas de volta à realidade. Pois é, eu esperava, o ônibus não chegava, a agonia continuava. E agora é a hora de dar um pequeno pitaco das coisas que aprendi na porra da minha vida: sempre que as coisas podem piorar, elas pioram. Isso mesmo, a situação um tanto triste que esse ser que vos escreve passava, ficou ainda pior. No ônibus, iam, no máximo, umas sete pessoas. Meu banco era o treze( mal sina?!vai saber...). O banco em frente ao treze é o nove e, pelo que eu vi, não seria ocupado por ninguém. Conclusão precipitada. Eu sentado no número treze depois de uma despedida curta com a minha mãe, pensando, pensando e pensando. De repente, e outra coisa que aprendi, pelo menos nas leituras ruins que fiz, é que depois de um de repente geralmente vem uma coisa ruim. ( Vou começar de novo e , por favor, dêem o valor dramático que o de repente merece). De repente, ela entrou. Ela mesma. A protagonista da história aí embaixo. Imaginem meu estado de espírito. Claro que afundou tudo. E vocês já devem ter concluído que ela era a pessoa do banco nove. Prometia, eu sei. O ônibus saiu. fechei os olhos. Porra! Eu tinha que dormir. seria tortura demais viajar quatro horas atrá da criatura e... É, é vocês sabem, afinal foram seis anos e a carne é fraca. Tentei, juro que tentei, mas o sono não veio. Então resolvi. Hoje vou ser forte. Ser feio é encargo da natureza, mas ser covarde é questão de escolha (que baita bobagem). Decidi que não faria nada, nem me mexeria, não haveria ninguém sentado no treze. Quando o sol estava se pondo, começou a bater um vento de algum lugar que não sei qual, mas que batia nos cabelos dela e trazia para o treze o perfume. Sim, sim (que patético), era o mesmo perfume que eu senti por seis anos e reconheço em qualquer lugar do mundo (tá exagerei, eu sei). Toda vez que ela mexia no cabelo, o cheiro aumentava e foi torturante. Admito, quase chorei. Não me entendam mal. Esse episódio só serviu para coroar as péssimas férias que tive. Houve uma série de acontecimentos que não posso e, acima de tudo, não quero contar agora. Vocês não sabem como dói deixar a família, a casa, por pior que seja o lugar onde elas estão. Uma volta à Porto Alegre sempre é triste e uma volta atrás da pessoa que você gosta é muito pior, acreditem. Até a metade da jornada fui muito decidido, mas depois fraquejei, confesso. Fui aos trancos e barrancos. Fiquei me segurando. Era a chance que eu precisava e queria, desde que escrevi a Saga. Sabia que ali, entre o treze e o nove, a coisa duraria por muito tempo, ou acabaria. Era a prova de fogo para eu ver se havia mesmo expurgado, como diz o Fernando. Quando entramos em Cachoeirinha, quase fui. Eu só pensava que aquele momento era o verdadeiro momento, se é que vocês me entendem. Quer dizer, chega de acasos. Eu planejava meus passos. Levantaria, sentaria ao lado dela na maior cara-de-pau e falaria tudo que desse pra falar entre Cachoeirinha e a rodoviária de Porto Alegre. Não fui. Já tinha me segurado por cento e noventa quilômetros. Fui orgulhoso pela primeira vez em toda a história da minha vida. Se ela quisesse alguma coisa (hipotético?!), viria falar comigo. Não falei nada. Chegamos e eu desci. Ela estava na minha frente. Eu ainda sentia o perfume, isso me torturava. Fomos pegar as malas ela estava lotada. Claro que eu não desceria do meu orgulho. Não me ofereceria para carregar nada. Ela que desse um jeito. Mas pensei e a grande verdade da minha vida é que sempre que penso cago. Até tenho a máxima: Penso, logo cago. Pensei que era uma guria cheia de malas, que podia precisar de uma ajuda. Sim, me ofereci para ajudá-la. Ela disse que dava um jeito. Perguntei para onde ela ia. Respondeu que ia pegar um táxi. Eu disse tá e fui para o outro lado.
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