terça-feira, 16 de setembro de 2008

Essência

O primeiro pensamento que tive quando fiz dezenove anos foi: é hora de desistir. Do quê? De muita coisa. Muita coisa não, porque não tenho muito, mas do pouco que quero. Acho que as coisas não têm sentido nem porquê. Não valem a pena. E valer a pena é outra questão que se debate dentro de mim por muito tempo. Eu iria escrever que às vezes penso em abandonar tudo, mas isso não acontece às vezes, acontece todo dia quando vou dormir, quando acordo, quando penso. Não acredito que certos esforços poderão mudar o rumo da minha vida. Cheguei à conclusão que nenhum esforço poderá mudar esse rumo. Que diferença vai fazer se eu chegar ao fim desse curso, se eu não chegar, se eu conseguir o que quero, não conseguir? Nenhuma diferença. Essa é a resposta. A essência não vai mudar se eu conseguir alguma coisa. Sempre vou me sentir o mesmo. Sempre vou pensar que sou um derrotado e um fracassado, mesmo conseguindo alguma coisa, eu vou saber quem eu sou. Isso faz toda a diferença. Sendo alguma coisa, não serei ninguém. Continuarei eu mesmo. E foi essa conclusão que eu tirei em dezenove anos de vida. Não importa o que eu consiga, serei o mesmo. E minha essência é nada. Lutei contra essa idéia do nada. Não poderia me conformar, mas as tentativas frustradas foram me esmagando um pouco por dia. Entendo o que é ser esmagado pelas tentativas porque tentei mais que muita gente. Fui um perseguidor implacável dos meus objetivos. Fui até os limites. Tentei até me esgotar. E agora entra Oscar Wilde com uma de suas máximas que, claro, tem toda a razão: só exisem duas grandes tragédias na vida, a primeira é não conseguir o que se quer, a segunda é conseguir. Isso é certíssimo. Todo ser humano é insaciável por natureza. Ninguém se contenta com pouco. Quando consegui alcançar alguns objetivos, simplesmente passei por eles, atropelei. Não aproveitei nada, nem me lembro dos momentos. Cheguei nesses objetivos e comecei a pensar nos próximos, no que eu faria para alcançá-los. O que desisti agora, é de ser insaciável. Não ser insaciável é não ser nada. Não quero mais objetivos. Não quero me matar atrás de mais nada. Não quero correr atrás de nada. Não quero lutar contra maré nenhuma. Quero me esconder da vida. Quero pegar um livro e me abstrair com sua história até a última frase e quando ele acabar, pegar outro e assim fazer um processo contínuo de não viver, de não enfrentar nada, nem buscar nada. Quero ser um medíocre solitário. Quero manter meu universo de vidro onde nada acontece, nada pode acontecer, nada vai acontecer. Sim, assumi de vez meu individualismo. Abandonei os ideais. Por muito tempo pensei em ajudar os outros, ser alguém útil. Mas agora chega. Somos um conjunto de individualistas. Os poucos que me ajudaram terão minha gratidão e ajuda enquanto eu estiver vivo, mas aqueles que pouco se importaram, que se fodam. Acho que me preocupar comigo é o mais e o menos importante que posso fazer. É importante porque sou o opressor e o oprimido das minhas ações. E não é importante porque não vai fazer diferença nenhuma. Eu já disse, a essência é nada.

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