Abri os olhos e a vi. Pensei no Pessoa "valeu a pena? tudo vale a pena se a alma não é pequena". O sol entrava pela janela e batia no seu rosto. Estava linda. Eu me debatia por dentro. Lembrei de tudo, desde o fim até o começo. Nem sequer pisquei. Fiquei com olhos parados, fixos naqueles traços. A boca fina, fechada. O nariz pequeno, quase arrebitado. A mão direita embaixo do rosto. Os olhos fechados, tranquilos, vendo não sei o quê. Eu quis que o tempo parasse. Quis eternizar o momento. Sabia que o depois acabaria com tudo. Nasceria morto. Essa idéia me matava. O medo constante de perder o que tanto quis é uma merda. Não posso viver assim. As coisas têm que ser bem resolvidas. Vão para frente ou não vão para lugar nenhum. Sabia que depois daqueles segundos nos quais o sol entrava, que eu a via e a achava a guria mais linda do mundo, que eu até acreditava que poderia ser feliz, tudo desabaria. Quando ela abrisse os olhos, e principalmente eu abrisse, a realidade cairia e me esmagaria. Seria tão triste que não poderia esperar por aquilo. Seria fracassar de novo. Seria constatar que perdi meu norte. Seria admitir que a vida, realmente, não tem sentido, que eu nunca poderia ser feliz, que eu não poderia mudar as coisas, por mais que tentasse, que eu nadei contra a maré por muito tempo. Seria admitir que não sou nada. Não poderia esperar por esse momento. O medo me corroia. Levantei e saí.
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