quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O Outro*

Entro no meu apartamento e encontro o outro sentado no meu sofá. Lembro de Borges. Está velho, ou seria estou velho. Os cabelos brancos, as expressões de tristeza da face ainda são as mesmas, a única coisa que nos difere é o adorno em torno dos olhos causado pelas rugas.
No início não falamos, apenas nos olhamos. Algum tempo depois, ele fala:
- Lembro desse dia, foi há quarenta anos atrás.
Eu sou ele ou ele sou eu. Acho que na verdade somos o mesmo. Somos um único Fábio. Não consigo me controlar. Pergunto:
- Acontecerá algo de extraordinário na minha vida?
Ele me olha e sorri. Como conheço bem esse sorriso para substituir as palavras.
- Na nossa vida, você quis dizer.
Não concordo. Não falo nada. A penumbra da noite invade todos os espaços vazios. Não há mais nada naquela sala além de nós, ou além de mim. Ele continua me olhando. Me olha com os meus olhos. Essa idéia me confunde. Parece que estou nu na frente do outro. Aqueles olhos sabem tudo. Olham para dentro de mim. Ele fala:
- O que você quer ouvir?
- Tudo o que você puder me contar, respondo.
- Não posso te contar tudo. Nem quero.
Mais uma vez o silêncio. Começo a encará-lo. Meus olhos não desviam dos olhos dele. Nossos olhos não se desviam. Desafiam-se como irmãos gêmeos. Não, mais que isso, se fitam na frente de um espelho, um espelho que tem quarenta anos de diferença no reflexo. Ele ajeita os cabelos. Agora sei que vai falar. Essa é a senha.
- A vida não é nada além do que você esperava, começa. Não haverá grandes surpresas. Você se deparará com algumas dificuldades, mas será levado pela maré. Continuará sendo encontrado pelas decisões e não as encontrará.
Ele pára. Então não haverá nenhuma surpresa. Já esperava isso. Também já esperava ser encontrado pelas decisões. O outro não me falou de nada que já não soubesse. Tenho mais algumas perguntas.

- Escreverei algo? Um romance?
Agora seus olhos não são mais um reflexo. Eles perderam a ilusão. Ilusão que os meus ainda não perderam.
- Deixará que a chama se apague. A vida, o trabalho, o tempo, as derrotas, isso tudo vai fazer com que enterre os sonhos. Um dia, sentado em uma mesa de bar, olhando para as pessoas que passam, descobrirá que nunca teve talento e que tudo que escreveu foi em vão e sem sentido. Depois desse dia nunca mais escreverá.
Isso sim, apesar de esperado, é forte. Não encarar a verdade de frente é um modo de fuga. Mas o outro sabe e sabe que passo por isso. Ainda tenho mais perguntas.
- Continuarei lendo, mesmo sabendo do meu fracasso?
- Sim, lerá até que teus olhos percam as forças. É melhor colocar óculos o mais cedo possível. Sofrerá as conseqüências, respondeu.
Ainda falta uma pergunta. Aquela que pensei em fazer desde que entrei e vi o outro sentado no meu sofá. Ele sabe qual é a pergunta. Nem preciso fazê-la. Ele me responde.
- Não. Não conseguirá. Vai ser a maior decepção da nossa vida. Chegará muito perto. Pensando bem, terá a decisão em sua mão, mas escolherá não fazer nada. Por prudência, não vai querer dar um passo maior que a perna, mas vai descobrir que, no final, cairia do mesmo jeito. Ela casará em um sábado de setembro. Você irá e ficará até o fim. Até que se esgotem os últimos suspiros de esperança. Depois desse dia nunca mais a verá.
Agora entro no labirinto da minha existência e sei que não chegarei ao outro lado, o lado no qual está o sentido. Pela primeira vez em anos, choro. Ele me olha e fala:
- É melhor começar a esquecer agora, assim será mais fácil. No começo será terrível, mas você sobreviverá. Eu garanto.

E então ficamos em silêncio.

*Uma releitura de Borges feita por um interiorano e suas pequenas aspirações.

2 comentários:

cintilante disse...

bah.
(nunca sei como comentar quando gosto muito)

Keny Lane disse...

Ela vai ser inesquecível. Mas será apenas uma de várias inesquecíveis.
E de apenas uma tu não vai precisar lembrar ou esquecer... pois esta... bom, essa estará do teu lado quando abrires os olhos cansados de leitura. E também segurará a tua mão calejada da tua caneta de escrever originais de ótimos romances de sucesso.

beijos!