Esse é o título do meu livro preferido, que por sinal estou relendo. Acho que não há nenhum título que expresse tanto o inevitável: a vida passa. Não é só pelo peso do título que escrevo. Há dois anos atrás eu estava saindo da escola, sem a mínima idéia do que aconteceria e o que não aconteceria na minha vida. O único modo que eu achava para fugir dessas dúvidas era lendo e lendo O Tempo e o Vento. Não vou falar da maestria da obra, não tenho competência nem conhecimento suficiente para fazer isso. Quero falar mais do momento que esse livro apareceu na minha vida e do que aconteceu quando eu li a última página da trilogia.
Sem perspectivas. Essa frase talvez resuma meu estado naquela época. Sempre tive plena consciência das minhas possibilidades e ainda mais das minhas impossibilidades. Naquele momento eu sentia que acabava uma fase e que dali por diante eu teria que dar um jeito na minha vida. Que jeito? Fazer o quê? A vida era muito maior que o Bonja e os draminhas da minha vida. Isso me deixava pior ainda, acreditem. Se eu já era um fracassado no Bonja e com aqueles draminhas, como seria com o resto?
Eu sempre tentava não ser tão vítima. Sempre pensava que tinha gente muito pior que eu. Mas não adiantava. Somos egoístas por natureza, por essência. Então lá estava eu, com dezessete anos e pensando nas inúmeras coisas que eu não tinha conseguido e nas outras que não iria conseguir. Pensava em todo meu drama de adolescente fracassado: chinelo, pai alcoólatra, sem futuro e renegado. Sim, renegado também. Já tinha me acostumado a minha condição social, afinal, ser chinelo é só uma questão de costume, com o tempo, e aí entra também o título, você se acostuma com a falta de algumas coisas e aprende a ir dando um jeito.
As relações com meu pai sempre tiveram dois pólos: o sóbrio e o ébrio. Quando estávamos no pólo do sóbrio as coisas não eram tão ruins, mas quando estávamos no ébrio, as coisas ficavam péssimas. Do meu ponto de vista, as relações com meu pai foram decisivas para a visão de mundo que tenho hoje. Se vejo tudo com olhos receosos e sempre fico com o pé atrás é por que sei que as coisas sempre podem piorar ou dar errado. Não quero mais falar disso, esse assunto me deixa triste e com uma falta de fé na vida incrível.
Quanto a minha falta de futuro, ela me torturava. Tinha pensado em ser muita coisa. E não seria nada. Quanto mais o tempo passava mais eu tinha certeza disso. O fato de eu ser um guri chinelo, morar no Bonja, mais precisamente da Sapolândia, não ter dinheiro para quase nada e ser medíocre até certo ponto, praticamente anulavam minhas chances de ser alguma coisa. Eu tiinha alguns pensamentos sobre o que seria minha vida, já me imaginava trabalhando no mesmo lugar que meu pai e morrendo um pouco por dia naquela cidade. Não tinha pensamentos positivos. Não tinha motivos para ter pensamentos positivos. A realidade era gritante. Eu não podia negá-la.
Ser renegado foi outro fato importante e, não vou mentir, me feriu profundamente. Era uma derrota só minha. Um fracasso só meu. Eu não conseguia. Eu é que e escutava o não. E escutava o não por tudo que eu era e por tudo que não era. É claro que isso tem a ver com a Lauren. Ela era o símbolo de que eu não conseguiria nada. Por mais que eu fizesse, por mais que eu tentasse, o final era o mesmo. Sempre aquele horrível e curto não. E quando eu recebia mais um não, tudo aquilo que eu não era desabava na minha cabeça, então eu sabia que nada daria certo na minha vida e tudo era em vão.
Nesse momento em que eu lia O Tempo e o Vento, já tinha me saturado. Já tinha perdido tanto, já tinha recebido tantos nãos, estava tão sem perspectivas que não pensava em mais nada. Não tinha futuro e deu. Chegava de lutar contra a maré. Chegava de tentar em vão. O que não aconteceu até ali não aconteceria. Eu era um derrotado e tinha que me acostumar com isso. A vida tinha que ir para a frente, mesmo que fosse aquela bosta que era. Era o momento no qual eu levava o choque da realidade. O momento que as minhas impossibilidades ficaram ainda mais gritantes.
Então, na semana em que eu lia o terceiro Arquipélago, última parte da trilogia. Aconteceram algumas coisas que me desviaram um pouco do caminho tortuoso que eu fazia até a minha dura realidade. Ganhei uma bolsa e isso, por mais torvo que fosse, me dava um relance de futuro. Talvez alguma coisa mudasse. E no dia em que eu li a última parte do Tempo e o Vento, eu fiquei com a Lauren. Esse foi o acontecimento que mais me deu esperanças naquele tempo. Naquele dia eu pensei que sim, que a vida poderia ter um sentido, que eu poderia mudar minha rota de derrotas, eu poderia ter futuro. Aquele momento foi o que eu mais tive esperanças na minha vida. Aquele foi o momento que eu acreditei em muita coisa. O beijo dela abriu meus olhos para as possibilidades que minha vida poderia ter. Naquele momento eu acreditei que eu tinha o direito de ser feliz e mais, eu poderia ser feliz.
Naquele dia eu li a última página do Tempo e o Vento, fechei o livro com uma baita esperança. Mas tinha acabado, aquele momento tinha acabado, meu momento de esperança nunca mais apareceria. O Tempo e o Vento tinham passado, foi um momento, também tinha acabado. E a Lauren. A Lauren nunca mais.
Sem perspectivas. Essa frase talvez resuma meu estado naquela época. Sempre tive plena consciência das minhas possibilidades e ainda mais das minhas impossibilidades. Naquele momento eu sentia que acabava uma fase e que dali por diante eu teria que dar um jeito na minha vida. Que jeito? Fazer o quê? A vida era muito maior que o Bonja e os draminhas da minha vida. Isso me deixava pior ainda, acreditem. Se eu já era um fracassado no Bonja e com aqueles draminhas, como seria com o resto?
Eu sempre tentava não ser tão vítima. Sempre pensava que tinha gente muito pior que eu. Mas não adiantava. Somos egoístas por natureza, por essência. Então lá estava eu, com dezessete anos e pensando nas inúmeras coisas que eu não tinha conseguido e nas outras que não iria conseguir. Pensava em todo meu drama de adolescente fracassado: chinelo, pai alcoólatra, sem futuro e renegado. Sim, renegado também. Já tinha me acostumado a minha condição social, afinal, ser chinelo é só uma questão de costume, com o tempo, e aí entra também o título, você se acostuma com a falta de algumas coisas e aprende a ir dando um jeito.
As relações com meu pai sempre tiveram dois pólos: o sóbrio e o ébrio. Quando estávamos no pólo do sóbrio as coisas não eram tão ruins, mas quando estávamos no ébrio, as coisas ficavam péssimas. Do meu ponto de vista, as relações com meu pai foram decisivas para a visão de mundo que tenho hoje. Se vejo tudo com olhos receosos e sempre fico com o pé atrás é por que sei que as coisas sempre podem piorar ou dar errado. Não quero mais falar disso, esse assunto me deixa triste e com uma falta de fé na vida incrível.
Quanto a minha falta de futuro, ela me torturava. Tinha pensado em ser muita coisa. E não seria nada. Quanto mais o tempo passava mais eu tinha certeza disso. O fato de eu ser um guri chinelo, morar no Bonja, mais precisamente da Sapolândia, não ter dinheiro para quase nada e ser medíocre até certo ponto, praticamente anulavam minhas chances de ser alguma coisa. Eu tiinha alguns pensamentos sobre o que seria minha vida, já me imaginava trabalhando no mesmo lugar que meu pai e morrendo um pouco por dia naquela cidade. Não tinha pensamentos positivos. Não tinha motivos para ter pensamentos positivos. A realidade era gritante. Eu não podia negá-la.
Ser renegado foi outro fato importante e, não vou mentir, me feriu profundamente. Era uma derrota só minha. Um fracasso só meu. Eu não conseguia. Eu é que e escutava o não. E escutava o não por tudo que eu era e por tudo que não era. É claro que isso tem a ver com a Lauren. Ela era o símbolo de que eu não conseguiria nada. Por mais que eu fizesse, por mais que eu tentasse, o final era o mesmo. Sempre aquele horrível e curto não. E quando eu recebia mais um não, tudo aquilo que eu não era desabava na minha cabeça, então eu sabia que nada daria certo na minha vida e tudo era em vão.
Nesse momento em que eu lia O Tempo e o Vento, já tinha me saturado. Já tinha perdido tanto, já tinha recebido tantos nãos, estava tão sem perspectivas que não pensava em mais nada. Não tinha futuro e deu. Chegava de lutar contra a maré. Chegava de tentar em vão. O que não aconteceu até ali não aconteceria. Eu era um derrotado e tinha que me acostumar com isso. A vida tinha que ir para a frente, mesmo que fosse aquela bosta que era. Era o momento no qual eu levava o choque da realidade. O momento que as minhas impossibilidades ficaram ainda mais gritantes.
Então, na semana em que eu lia o terceiro Arquipélago, última parte da trilogia. Aconteceram algumas coisas que me desviaram um pouco do caminho tortuoso que eu fazia até a minha dura realidade. Ganhei uma bolsa e isso, por mais torvo que fosse, me dava um relance de futuro. Talvez alguma coisa mudasse. E no dia em que eu li a última parte do Tempo e o Vento, eu fiquei com a Lauren. Esse foi o acontecimento que mais me deu esperanças naquele tempo. Naquele dia eu pensei que sim, que a vida poderia ter um sentido, que eu poderia mudar minha rota de derrotas, eu poderia ter futuro. Aquele momento foi o que eu mais tive esperanças na minha vida. Aquele foi o momento que eu acreditei em muita coisa. O beijo dela abriu meus olhos para as possibilidades que minha vida poderia ter. Naquele momento eu acreditei que eu tinha o direito de ser feliz e mais, eu poderia ser feliz.
Naquele dia eu li a última página do Tempo e o Vento, fechei o livro com uma baita esperança. Mas tinha acabado, aquele momento tinha acabado, meu momento de esperança nunca mais apareceria. O Tempo e o Vento tinham passado, foi um momento, também tinha acabado. E a Lauren. A Lauren nunca mais.
0 comentários:
Postar um comentário