"Não me pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por você." Essa frase me trás muitas lembranças. Más lembranças, diga-se de passagem. Lembro do dia em que eu lia "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway. Três anos atrás. Eu estava no segundo ano do ensino médio. E o ano estava uma bosta. Era outubro, domingo de chuva, domingo feio. A edição que a biblioteca do Ginásio tinha era encapada com um plástico estranho, a capa estava quase caindo, mas não me importava. Tinha o livro e isso era o suficiente. Um acontecimento desse domingo me fez deixar de acreditar em muita coisa. Mas antes de contar esse acontecimento vou contextualizar um pouco a história. Em pleno ano de 2005 meu pai tinha um bar perto da praça do Bonja. Não tenho dúvida em dizer que passei os dias mais tristes da minha vida dentro daquele boteco. Passava lá minhas tardes ouvindo gente que nunca fui com a cara. Levando sermão de quem se vangloriava de viver bêbado ou coçando o saco escorado em balcão de boteco. Esse ano foi muito ruim. Um dos piores que já passei. O tal ditado do peixe fora da água caia perfeitamente. Inacreditável como um acontecimento foi pior que o outro. Minha família estava sempre brigando. Eu estava sempre me fodendo, fosse pela Lauren ou por respirar. Por qualquer coisa eu me ralava. Dá raiva só de lembrar. Enfim, estava tudo uma grande merda, mas piorou. Nesse domingo chuvoso, meu pai chegou em casa lá pela uma hora da tarde, muito bêbado. O triste disso é que fazia quatro anos que ele não bebia. E vocês não sabem como isso dói num filho. Até meus doze anos vi meu pai beber e beber. Ele foi internado e parou. Parou por quatro anos. Parou até esse domingo chuvoso no qual eu lia "Por quem os sinos dobram". Depois de muito tempo agüentando tudo de ruim que acontecia na minha vida no osso do peito, nesse domingo desabei. Chorei, me tranquei na casa de baixo com o livro e misturei meu choro com a história de Robert Jordan. Nesse dia eu pensei em muita coisa. Por que tem gente que só se fode? Deus, será que existe? Por que as coisas não davam certo para mim? Já não estava na hora de ser um pouco, o mínimo que fosse, feliz? Já não tinha passado por tudo? Estava na hora de melhorar, não estava? Mas não só fiz perguntas nesse dia, também cheguei à conclusão de que a vida é uma bosta e quando o cara nasce cagado, não tem. Nunca neguei o que sou e há três anos atrás eu sabia que não seria nada. Sempre fui chinelo e não é agora, que só mudou a paisagem e as pessoas que me cercam, que minha essência vai mudar. Naquela época, o que me colocava para a frente eram três coisas:as amizades, os livros e a Lauren. Essas três coisas eram todo o meu horizonte de expectativas. E eu sabia que perderia esse horizonte a qualquer hora. Meus amigos provavelmente iriam estudar fora, um dia eu teria que me tornar proletário e os livros desapareceriam da minha vida, a Lauren, bom, eu nunca conseguiria. Enfim, eu era um fodido, não tinha futuro nenhum. Minhas chances de fazer uma faculdade eram as mínimas possíveis. A luz da minha casa era cortada uma vez por mês, como iria pagar um faculdade? Juro que já me via atrás de um balcão pelo resto da vida, vendendo cachaça, fritando pastel, ouvindo conversa de bêbado e definhando um pouco por dia. A cada dia que passava eu me afundava mais nessa lama de falta de perspectivas. É por isso que não admito que as pessoas venham me falar em esperança. Quando o cara está rodeado de merda ele deixa de acreditar em tudo. Em si principalmente. Eu não passava de um guri de bosta sem futuro, que morava num cu de mundo, que cuidava de um boteco, que não conseguia nem mesmo conquistar a guria de que gostava. Eu tinha consciência disso tudo, de toda essa falta de coisas. Pensava em me matar toda vez que fazia o trajeto do boteco à minha casa. Nem lembro quantas vezes saí nas noites frias do Bonja, caminhando na chuva, pensando, pensando e pensando. Um ser humano não poderia ser tão derrotado assim. Eu tinha que dar um jeito naquilo. E o único jeito era me matar. Não agüentava mais aquele cheiro de cachaça impregnado nas minhas mãos, aquele clima de constante briga em casa, aquele ar de derrota que pairava sobre minha cabeça e a de meus amigos, aquela felicidade no rosto da Lauren, por que não tem nada pior do que a felicidade da pessoa que você gosta quando você está na merda e a pessoa feliz, e feliz com outro. As únicas coisas que tiravam um pouco da minha cabeça o constante fracasso eram as peladas no municipal, os livros e as conversas com o Fernando. Quase nos matávamos nas peladas contra a gurizada da Madeireira: Fernando na zaga, Douglas na lateral direita, eu na esquerda e o Tio Musa lá na frente, pescando. Por incrível que pareça, nunca mais joguei com um time que me desse tão bem e quando nos acertávamos, meu amigo, a coisa saia. Os livros sempre foram a fuga. Desde que li "Harry Potter e a Pedra Filosofal", descobri que o mundo poderia ser outro, pelo menos para mim, na minha cabeça e pelo tempo que aquelas páginas durassem. Em um ano fui de J.K. Rowling a Dostoiévski, mas eu sabia que não tinha lido nada e por isso continuava, continuo. E sempre que estava mal, isso ocorria constantemente, tinha uma xícara de café e uma música do Led na casa do Fernando. Passávamos horas falando nas coisas ruins que nos aconteciam e nas boas que nunca aconteceriam. Fazíamos uma térmica de café e escutávamos "All of my love" por horas. Essas são as melhores lembranças que tenho daquele ano. Hoje é uma quinta-feira, também outubro e ainda não está chovendo. Algumas coisas mudaram. Saí do Bonja, perdi a maioria dos amigos, não existe mais boteco (vi derrubarem o prédio, senti uma leve alegria ao ver que ele não voltaria mais, confesso), as brigas na minha casa não são tão constantes e não cortam a luz uma vez por mês. O que, ainda, me mata são as coisas que não mudaram. Sou o mesmo guri fodido e chinelo, continuo sem futuro e a Lauren ficou inalcançável. E não é porque eu moro em outra cidade ou entrei na faculdade que mudei minha essência. Sou o mesmo fracassado de três anos atrás. Continuo sem horizonte de expectativas. E me fodo tanto ou mais que antes. Não estou lendo "Por quem os sinos dobram", acho que hoje consigo pegá-lo na biblioteca, mas uma coisa eu já sei, não é por mim que os sinos dobram, mas pode ser por você.
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