quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Véspera

Um dia antes de vir embora para Porto Alegre, há dois anos atrás, num domingo de sol, eu caminhava sem rumo pelas ruas do Bonja. Sem rumo mesmo. Procurava alguma coisa que não sabia o que era. Bom, eu sabia o que era e isso me corroia por dentro. Eu estava a um dia de dar o maior passo da minha vida. Mudaria cidade, casa, entraria na faculdade e isso já era mais do que o bastante.
Eu pensava em tudo que havia acontecido naquele último ano. Pensava em tudo que poderia vir, no desconhecido que eu enfrentaria no dia seguinte e isso me deixava inseguro. Nunca me adaptei às incertezas. Não poderia ser verdade. Eu passei anos querendo ir embora daquela cidade, mas quanto eu mais queria, mais eu sabia que não tinha possibilidades de não fazer isso. E ali, quando eu estava com a chance na mão, eu titubeava, pensava melhor. Será mesmo que queria ir embora? Será mesmo que queria entrar para um curso de Letras? Não sabia essas respostas. Eu queria ler e escrever, era a única certeza. Mas, como acontecia sempre, eu era levado pela maré. Querendo ou não, em dúvida ou não, eu iria embora no outro dia.
Nunca consegui deixar de pensar no futuro. Nunca deixei de me perguntar o que aconteceria no dia seguinte. Isso talvez tenha me atrapalhado muito. É um clichê, mas deixei o hoje para viver o amanhã. E naquele dia, um dia antes de deixar tudo para trás, porque esse era o meu sentimento, parece que eu estava virando uma página de um livro que eu nunca mais teria nas minhas mãos, eu pensava mais que nunca no futuro. Fora o que aconteceria comigo e com a minha carreira incerta, eu também pensava o que aconteceria com a Lauren, e hoje eu sei, essa era a maior maneira de pensar em mim. Os caminhos se separariam, não que corressem juntos para o mesmo lugar. Mas, ao contrário dos anos anteriores, eu sabia qua não a veria mais. Antes, apesar de não ter absolutamente nada com ela, eu sabia que, quando março chegasse, eu a encontraria na escola e o apenas ver já me satisfazia. Agora era incerto. Sempre pensei nas piores possibilidades, sempre pensei no pior que poderia acontecer. Era um jeito de me preparar para as coisa ruins, só isso. E nesse eu preparo para o que de pior poderia acontecer, eu já pensava que mais cedo ou mais tarde perderíamos o contato: ela seria só lembrança e eu um carinha que escreveria sobre ela, como agora, talvez.
Naquele domingo de sol no qual eu caminhava sem rumo, era ela que eu procurava. Era ela que eu precisava ver mais uma vez, nem que fosse só para ver. Vê-la seria uma certeza, a certeza de que eu viraria a página mas que carregaria o livro aonde eu fosse. Caminhei até que anoitecesse.

2 comentários:

Ramiro disse...

Agora eu tenho que postar por aqui é? ... ok então ... abraço.

Ramiro disse...

Cara, acabei de lêr todo o teu blog, do começo ao fim (ou melhor do fim pro começo, em ordem cronológica), agora tô quase atrasado pra comer e ir trabalhar ...
... gosto das tuas histórias e do teu estilo(ou falta de), acho que sou teu fã ... o dia q vc "parir" um livro próprio me avise ... abraço.