Há uns três anos, quando eu estava na metade do ensino médio, o Fernando morava no Bonja e ninguém jogava sapatos no Bush, nas tardes em que eu não era obrigado a cuidar do bar, ia jogar umas peladas no municipal. Formávamos um time muito estranho e, pior ainda, sem nenhuma qualidade. Fernando na zaga, eu na esquerda, Douglas na direita e o Tio Musa na frente. Éramos ruins, mas nos esforçávamos. Corríamos como loucos, quer dizer, o Tio Musa ficava lá na frente esperando a bola chegar e nós nos matávamos. No começo jogávamos somente entre nós. Não seria muito bom sermoshumilhados nas nossas tardes de vagabundagem. Depois vimos que os outros não eram nada além de nós, e começamos a enfrentar quem aparecesse no campo entre as duas da tarde e o fim do dia. Perdemos de muita gente, ganhamos de outros, mas nenhum jogo foi tão interessante como aquele contra o time do Galera, que na época era formado só pela gurizada da Madeireira, a primeira vila que se vê quando se chega ao Bonja por Jaquirana. Os caras viviam jogando e jogavam campeonatos. Faziam só aquilo da vida e nós éramos uns moles que, de vez em quando iam ao campo para jogar uma pelada. Isso poderia servir de desculpa para uma derrota, mas não foi isso. Naquele dia nós vencemos e vencemos bem. Nunca mais terei companheiros de time tão bons quanto os que tive aquele dia. Seria certo falar que nos superamos. Éramos ruins, moles e só sabíamos correr. Naquele dia tudo deu certo. Vocês sabem que há dias no futebol onde tudo dá certo para um time. Um dia em que até errar o pé na bola se torna um drible desconcertante. Era esse o nosso dia. Tá, também existem dias ruins no futebol e talvez aquele tenha sido o dia ruim do time adversário. Mas não quero tirar o mérito dos meus companheiros e também o meu. naquela tarde fomos desafiados e quase não aceitamos. Então surgiu aquela velha frase que faz o orgulho de um homem sair dos colhões e saltar pelos póros: "estão com medo". Aquilo foi demais, éramos ruins o suficiente para perder, mas éramos orgulhosos o suficiente para não correr da luta quando ela começava. Aceitamos e começamos a pelada. Jogamos com um a menos, além de todas as adversidades que nosso time possuia. Goleirinha pequena, quatro contra cinco, três horas da tarde, municipal, Sapolândia. Foi a nossa decisão de copa do mundo. O jogo não valia nem um litro de Marabá, o pior refri que já passou pelo Bonja, mas demos o sangue, literalmente. A nossa formação vocês já conhecem. Mas agora vão alguns detalhes. O Fernando jogava atrás e talvez fosse o único que jogasse na posição que sabia. O Douglas jogava na direita, mas era um tanto estabanado, nunca cruzou uma bola pelo que eu me lembre. O Tio Musa jogava na frente porque era a única posição que sabia jogar, mas mesmo assim, raramente fazia algum gol. Eu jogava na esquerda só para não deixar um buraco daquele lado do campo, pois minha canhota era péssima. O jogo durou uma hora, mas parecia que eu tinha corrido por dias. Não fui só eu, todos correram, até mesmo o Tio Musa. Quase nos matamos na correria. Fizemos um, dois, três, quatro... e eles nada. Nossos adversários começaram a perder a paciência. Eram superiores, tinham mais futebol, mas estavam perdendo e não só perdendo como levando um banho de bola. Começamos a apanhar. Mas nosso orgulho corria nas veias e não pedíamos falta, revidamos a altura. Virou uma coisa terrível. Alguém pegava a bola e era levantado. Não nos entregamos. Quanto mais eles perdiam a paciência, mais nosso futebol melhorava. Depois de uma hora de batalha, acabou o jogo. Havíamos vencido. Quando voltávamos das peladas, geralmente vinhamos reclamando. Naquele dia não falamos nada. Parece que fizemos um acordo mudo. Todos sabiam da nossa vitória, Todos sabiam da nossa superação, mas não falávamios daquilo. Era uma forma de tornar nossa glória em uma coisa maior ainda. O que importava era que, naquele dia, havíamos vencido e éramos os melhores. Os outros não precisavam saber disso. Só nós e nossos egos.
1 comentários:
não sei o que foi mais incrível: ter participado do embate ou reviver isso agora com a história. Acho que seria bom relembrar dessas coisas do lado de quem participou, pena que nenhum dos componentes do time(e do restante da galera que fez parte do início da adolescência no Bonja) pareça ta disposto a degustar nostalgias ultimamente.
Depois de ler isso, conclui que os tempos mudaram. E, como todo homem é fruto do tempo em que vive, as pessoas tbm mudaram, até mesmo no Bonja...
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