Essas serão as últimas postagens deste ano. Provavelmente eu vá para o Bonja amanhã e só volte no início das aulas. Ainda não é certo, mas é o mais provável. E no Bonja, me obrigo a um exílio onde nada acontece. Se não me engano, coloquei três postagens de uma só vez. Não que eu ache que meus leitores (será que inexistentes como o cavaleirio de Calvino?) sentirão falta ou algo parecido. É só para dar a sensação de que o blog não ficará às moscas. Elas estão ruins. Talvez as cinco últimas estejam muito ruins. Mas não vou apagá-las nem nada, não é porque não me importe com a qualidade do que escrevo, é que se tivesse que apagar cada post ruim, o blog não existiria. Bom, me sinto na obrigação de fazer alguns comentários sobre o que surgiu esse ano. Algumas postagens ficaram realmente longas e não disseram nada com nada. Histórias mesmo, foram muito poucas. A maioria foi um conjunto dos meus devaneios de guri que não sabe como conseguir o que quer e se põe a reclamar escrevendo. Não gostei desse ano introspectivo. A sensação que tenho é a de que escrevi, escrevi e não escrevi nada. Acho que não é errado dizer isso. Mas enfim, foi o que saiu. Não posso negar que meu pessimismo ficou mais do que claro. E um pessimismo em relação a tudo. As postagens que falaram da Lauren dominaram o ano, ainda mais depois de agosto, que comecei a vê-la mais freqüentemente. Em setembro nem se fala. Um que particularmente gostei bastante foi O Outro. Tá bom que uma cópia descarada de Borges e talvez tenha sido por isso que gostei. O eixo não era meu. Saga teve seus pontos positivos. Sabem, pode ser até uma história meio trágica, mas quando a escrevi só queria dar umas risadas das burrices que já fiz. A Última História foi a postagem que mais mostrei a cara, fiquei completamente nu em meus sentimentos e depois dela pensei sobre continuar escrevendo coisas daquele tipo ou não. Por quem os sinos dobram, O Velho e o Mar e O Tempo e o Vento, junto com a Última História, foram as coisas mais sinceras que eu poderia ter escrito. E daí que elas estivessem carregadas de pessimismo, lirismo e amor não correspondido. Não foram só minhas atribulações da hora. Foram a libertação de coisas que me incomodavam há anos. Foram totalmente sinceras. E acho melhor escrever coisas sinceras a coisas boas. Bom, quero agradecer aos leitores (o bom de não ser lido é isso, posso agradecer a todos pelo nome), que tiveram uma paciência incrível ao perder seu tempo lendo meus devaneios: Fernando, Ricardo, Ramiro, Cíntia, Keny, mais recente, mas não perdeu muito, e Lauren, que só lê de vez em quando. Tenho algumas leituras para as férias e em março alguma coisa surgirá por aqui. Então, acabou. Pelo menos por enquanto.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Caminhando na Chuva
Caminha com passos lentos pela rua recém molhada. Não se importa com a chuva. É até melhor. Ninguém vê que ele está chorando. Já leu isso em algum lugar. Sim. Leu isso em “Caminhando na Chuva”. Era uma boa história. Tinha muito em comum com o personagem. Foi o que ele achou. Mas enfim. Estava chovendo, ele caminhava e já era noite. Nada de mais. Ele pensa que, se escrevesse, nunca faria uma cena assim. É clichê demais. Um cara, a chuva, a noite, a solidão. Mas o pior é que essa é a maior verdade. É sempre um cara, a chuva, a noite, a solidão. A única coisa que difere as personagens é o destino de cada uma. Poderia muito bem andar naquela noite e se matar depois, ou tomar um grande porre de vinho, ou simplesmente voltar para casa e se conformar. Ele pertence a esse último grupo. Os conformados. Nessa noite, nessa chuva, com esse cara e nessa história, ele acaba de descobrir que é burro. Seria mais bonito se ele descobrisse que é um iludido. É, talvez seja mais poético. Mais trágico também. A imagem que as pessoas têm de um homem burro é muito diferente da que elas têm de um iludido. Iludido é melhor mesmo. Pois então voltemos. Esqueçam essa parte. Continuemos daquela frase... Nessa noite, nessa chuva, com esse cara e nessa história, ele acaba de descobrir que é um iludido. Está com aquela sensação de que, por muito tempo, tempo até demais, seguiu por um caminho errado. Sempre pensou nas pessoas assim. Como seria perseguir e lutar por um ideal durante quase toda a vida e, de um segundo para outro, descobrir que não valia a pena? Ele está neste estado agora. Está com aquela sensação, aquela sensação terrível que dói tanto no peito quanto a dor da ansiedade, pois ambas as dores estão diante do desconhecido. A diferença dessas dores é que a da ansiedade não está transbordando de vazio. Continua caminhando e pensando em milhares de coisas. Nesses momentos ninguém pensa em alguma coisa. Pensa em muita coisa. Pois quando a razão vem, ou simplesmente cai a ficha, os pensamentos se embaralham e se afobam, se entrelaçam a outro e mais outro, ligam imagens datas, pessoas, acontecimentos, falta de acontecimentos, o sim, o não. A chuva aumenta um pouco. Não tem importância. A chuva não fere tanto. Simplesmente molha.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Batalha
Há uns três anos, quando eu estava na metade do ensino médio, o Fernando morava no Bonja e ninguém jogava sapatos no Bush, nas tardes em que eu não era obrigado a cuidar do bar, ia jogar umas peladas no municipal. Formávamos um time muito estranho e, pior ainda, sem nenhuma qualidade. Fernando na zaga, eu na esquerda, Douglas na direita e o Tio Musa na frente. Éramos ruins, mas nos esforçávamos. Corríamos como loucos, quer dizer, o Tio Musa ficava lá na frente esperando a bola chegar e nós nos matávamos. No começo jogávamos somente entre nós. Não seria muito bom sermoshumilhados nas nossas tardes de vagabundagem. Depois vimos que os outros não eram nada além de nós, e começamos a enfrentar quem aparecesse no campo entre as duas da tarde e o fim do dia. Perdemos de muita gente, ganhamos de outros, mas nenhum jogo foi tão interessante como aquele contra o time do Galera, que na época era formado só pela gurizada da Madeireira, a primeira vila que se vê quando se chega ao Bonja por Jaquirana. Os caras viviam jogando e jogavam campeonatos. Faziam só aquilo da vida e nós éramos uns moles que, de vez em quando iam ao campo para jogar uma pelada. Isso poderia servir de desculpa para uma derrota, mas não foi isso. Naquele dia nós vencemos e vencemos bem. Nunca mais terei companheiros de time tão bons quanto os que tive aquele dia. Seria certo falar que nos superamos. Éramos ruins, moles e só sabíamos correr. Naquele dia tudo deu certo. Vocês sabem que há dias no futebol onde tudo dá certo para um time. Um dia em que até errar o pé na bola se torna um drible desconcertante. Era esse o nosso dia. Tá, também existem dias ruins no futebol e talvez aquele tenha sido o dia ruim do time adversário. Mas não quero tirar o mérito dos meus companheiros e também o meu. naquela tarde fomos desafiados e quase não aceitamos. Então surgiu aquela velha frase que faz o orgulho de um homem sair dos colhões e saltar pelos póros: "estão com medo". Aquilo foi demais, éramos ruins o suficiente para perder, mas éramos orgulhosos o suficiente para não correr da luta quando ela começava. Aceitamos e começamos a pelada. Jogamos com um a menos, além de todas as adversidades que nosso time possuia. Goleirinha pequena, quatro contra cinco, três horas da tarde, municipal, Sapolândia. Foi a nossa decisão de copa do mundo. O jogo não valia nem um litro de Marabá, o pior refri que já passou pelo Bonja, mas demos o sangue, literalmente. A nossa formação vocês já conhecem. Mas agora vão alguns detalhes. O Fernando jogava atrás e talvez fosse o único que jogasse na posição que sabia. O Douglas jogava na direita, mas era um tanto estabanado, nunca cruzou uma bola pelo que eu me lembre. O Tio Musa jogava na frente porque era a única posição que sabia jogar, mas mesmo assim, raramente fazia algum gol. Eu jogava na esquerda só para não deixar um buraco daquele lado do campo, pois minha canhota era péssima. O jogo durou uma hora, mas parecia que eu tinha corrido por dias. Não fui só eu, todos correram, até mesmo o Tio Musa. Quase nos matamos na correria. Fizemos um, dois, três, quatro... e eles nada. Nossos adversários começaram a perder a paciência. Eram superiores, tinham mais futebol, mas estavam perdendo e não só perdendo como levando um banho de bola. Começamos a apanhar. Mas nosso orgulho corria nas veias e não pedíamos falta, revidamos a altura. Virou uma coisa terrível. Alguém pegava a bola e era levantado. Não nos entregamos. Quanto mais eles perdiam a paciência, mais nosso futebol melhorava. Depois de uma hora de batalha, acabou o jogo. Havíamos vencido. Quando voltávamos das peladas, geralmente vinhamos reclamando. Naquele dia não falamos nada. Parece que fizemos um acordo mudo. Todos sabiam da nossa vitória, Todos sabiam da nossa superação, mas não falávamios daquilo. Era uma forma de tornar nossa glória em uma coisa maior ainda. O que importava era que, naquele dia, havíamos vencido e éramos os melhores. Os outros não precisavam saber disso. Só nós e nossos egos.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
O Velho e o Mar
Oitenta e quatro dias sem pescar um peixe foi tempo suficiente para que o velho Santiago levasse a fama de azarado da pior espécie. No octogésimo quinto dia, ele fisga um peixe, o maior de todos que já viu. Na luta para derrotar o peixe, Santiago demora três dias. Depois de vencida a batalha, quando ele está voltando para casa com o enorme peixe amarrado ao seu barco, os tubarões atacam e deixam só o espinhaço do peixe. Santiago volta para sua casa e dorme na sua cama com colchão feito de jornais velhos.
Três anos atrás, quando li a obra pela primeira vez, o livro me causou uma baita tristeza no final. Mas agora que o reli me causou impacto. Foi muito mais forte. Uma das pouquíssimas coisas que aprendi na faculdade, e que minha mãe não leia isso, foi que ninguém lê duas vezes o mesmo livro. É como aquela história de que ninguém atravessa duas vezes o mesmo rio. Há três anos, vou ser sincero, minha vida estava uma merda. Nem sei como cheguei no “O Velho e o Mar”, na verdade, nem sei como cheguei ao Hemingway. Bom, a verdade mesmo é que não sei como cheguei a lugar nenhum, mas agora isso não importa. O que interessa é que era quase dezembro e eu estava lá no meu quarto, na minha casa, no Bonja, com esse livro na mão e um monte de coisas na cabeça. A edição era boa, mas umas frases na contracapa me deixaram um pouco apreensivo sobre o que eu entenderia daquele livro. Mas li. E, confesso, na época cheguei ao final um tanto decepcionado. Talvez esse também tenha sido um dos motivos da minha tristeza.
Bom, mas reli a obra. Três anos se passaram e eu precisava voltar para aquele livro. A primeira diferença foi no tempo de leitura. Antes eu havia demorado dias, acho que até semanas, agora li em uma tarde. Claro que isso não quer dizer nada. Mas já é uma diferença. Prestei mais atenção a frases como: “Um homem não nasceu para a derrota, um homem pode ser destruído, mas não derrotado”. Isso também pode não dizer nada, mas para mim faz muita diferença.
Dessa vez, quando acabei, senti um vazio imenso e, no meu pouco entendimento, as obras que causam esse vazio no leitor são geniais. Quando fechei o livro, não acreditei que uma coisa tão pequena pudesse ser tão genial e dizer tanta coisa em tão pouco espaço. Claro que ali há uma mensagem de esperança no homem, na sua capacidade, na sua persistência, na sua fé, mas também há o outro lado. O lado de um velho que passa oitenta e quatro dias sem pegar um peixe e quando pega, ele é devorado pelos tubarões. Penso na idéia de injustiça, de falta de sentido. E é isso que Santiago representa para mim: as quase conquistas.
O velho foi o maior pescador do mundo enquanto os tubarões não apareceram. Foi o homem mais sortudo de Cuba por instantes. Mas Santiago era salao, ele não trairia sua essência, era um azarado da pior espécie, um sofredor, mas se negava a ser um derrotado. E é aí que entra a frase que já citei acima, Santiago não foi derrotado, foi destruído. O velho lutou contra a derrota até que ela acabasse com suas forças, até que ele não pudesse fazer mais nada a não ser dormir na sua cama com colchão de folhas de jornal.
Santiago me fez chegar a uma conclusão: a tentativa leva à derrota, a persistência à destruição. Por isso me identifiquei com o velho. Ambos não admitimos uma derrota, persistimos até que encontremos a vitória ou sejamos completamente destruídos. E é quase em estado de destruição que me encontro agora. Já vejo os tubarões se aproximando.
Três anos atrás, quando li a obra pela primeira vez, o livro me causou uma baita tristeza no final. Mas agora que o reli me causou impacto. Foi muito mais forte. Uma das pouquíssimas coisas que aprendi na faculdade, e que minha mãe não leia isso, foi que ninguém lê duas vezes o mesmo livro. É como aquela história de que ninguém atravessa duas vezes o mesmo rio. Há três anos, vou ser sincero, minha vida estava uma merda. Nem sei como cheguei no “O Velho e o Mar”, na verdade, nem sei como cheguei ao Hemingway. Bom, a verdade mesmo é que não sei como cheguei a lugar nenhum, mas agora isso não importa. O que interessa é que era quase dezembro e eu estava lá no meu quarto, na minha casa, no Bonja, com esse livro na mão e um monte de coisas na cabeça. A edição era boa, mas umas frases na contracapa me deixaram um pouco apreensivo sobre o que eu entenderia daquele livro. Mas li. E, confesso, na época cheguei ao final um tanto decepcionado. Talvez esse também tenha sido um dos motivos da minha tristeza.
Bom, mas reli a obra. Três anos se passaram e eu precisava voltar para aquele livro. A primeira diferença foi no tempo de leitura. Antes eu havia demorado dias, acho que até semanas, agora li em uma tarde. Claro que isso não quer dizer nada. Mas já é uma diferença. Prestei mais atenção a frases como: “Um homem não nasceu para a derrota, um homem pode ser destruído, mas não derrotado”. Isso também pode não dizer nada, mas para mim faz muita diferença.
Dessa vez, quando acabei, senti um vazio imenso e, no meu pouco entendimento, as obras que causam esse vazio no leitor são geniais. Quando fechei o livro, não acreditei que uma coisa tão pequena pudesse ser tão genial e dizer tanta coisa em tão pouco espaço. Claro que ali há uma mensagem de esperança no homem, na sua capacidade, na sua persistência, na sua fé, mas também há o outro lado. O lado de um velho que passa oitenta e quatro dias sem pegar um peixe e quando pega, ele é devorado pelos tubarões. Penso na idéia de injustiça, de falta de sentido. E é isso que Santiago representa para mim: as quase conquistas.
O velho foi o maior pescador do mundo enquanto os tubarões não apareceram. Foi o homem mais sortudo de Cuba por instantes. Mas Santiago era salao, ele não trairia sua essência, era um azarado da pior espécie, um sofredor, mas se negava a ser um derrotado. E é aí que entra a frase que já citei acima, Santiago não foi derrotado, foi destruído. O velho lutou contra a derrota até que ela acabasse com suas forças, até que ele não pudesse fazer mais nada a não ser dormir na sua cama com colchão de folhas de jornal.
Santiago me fez chegar a uma conclusão: a tentativa leva à derrota, a persistência à destruição. Por isso me identifiquei com o velho. Ambos não admitimos uma derrota, persistimos até que encontremos a vitória ou sejamos completamente destruídos. E é quase em estado de destruição que me encontro agora. Já vejo os tubarões se aproximando.
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