segunda-feira, 30 de março de 2009

O curioso caso de Catatau- Última Parte

3) O centroavante e os 496 dias- 2º Tomo
Daqueles 496 dias sem marcar sequer um gol de barriga. É senhores leitores, Catatau, o centroavante da esperança, o homem gol, o fenômeno do Bonja, ficou todos esses dias sem balançar as redes. Foi uma fase realmente negra. Nesses 496 dias houveram 27 partidas. 27! E nada. A diretoria não sabia como lidar com a situação. Será que mandavam o Catatau pra reserva e colocavam no seu lugar o Bilica, o reserva manco que raramente saia do banco? Não. Seria o golpe de misericórdia no nosso portagonista. Então, pra que Catatau sentisse que a diretoria confiava nele, saiu a conversa que o Juventude iria sempre com Catatau e mais dez. O artilheiro se sentiu na obrigação de retribuir a confiança. No primeiro clássico que houve depois desse fato, aí pelo 263º dia, Catatau entrou em campo decidido. Buscou o jogo, ajudou a defesa, correu feito um louco, mas não fez um golzinho. Na cidade, o Catatau perdera todo o respeito. Ninguém mais tinha vergonha de soltar uma baita risada na cara dele. Pobre homem, passou das suas. O pior era que Catatau não conseguia colocar a bola na rede sequer nos treinos, jogava bem, dava bons passes, mas gol que é bom, nada. Aos poucos ele ia se recuperando. Serviço voltava a aparecer. Os filhos ficavam quase sempre na casa da avó, o homem não bebia tanto, estava decidido, aquela nhaca teria que acabar de uma vez. Então, naquele dia em que Catatau voltava do treino (foi assim que me contaram, portanto não vi nada, pode ser só lenda), houve a prova de fogo. Sentada na porta estava Neuza. Ele engoliu em seco. O coração deu aquele pulo que sempre dá quando a gente encontra quem nos fez sofrer. Ela o viu e logo falou.
- Fiz uma cagada, mas sei que você me quer de volta. Sem mim você não vive.
O Catatau quase se entregou, foi aquela hora na qual ele quase frouxou o garrão. Mas foi quase. Sim paciencioso leitor, Catatau demonstrou que depois de tudo que passou, ainda tinha um pouco de orgulho. Encarou a ex-mulher e disse:
- Vá comer rapadura!
Admitam, foi uma frase lapidar. Nunca que a Neuza esperava uma reação dessas daquele pobre corno-vesgo-abandonado. O choque da mulher foi tão grande que ela abriu o berreiro, saiu correndo e ninguém do Bonja voltou a vê-la. Pelo que investiguei, ela está morando em Jaquirana, virou dona de puteiro. É, a vida dá voltas.
Mas no vigésimo sexto jogo que aconteceu durante a seca de Catatau, houve um lance inédito na história do futebol bom-jesuense (há quem escreva bomjesuense, parece que somos um caso particular da gramática). Caroço, o meio-campo do Juventude, quando se viu apertado entre o lateral direito e o volante, não teve outra opção a não ser tocar para Catatau que era o companheiro mais próximo. Quando a bola estava chegando nele, ele deu uma meia-lua e a bola passou pelo meio das pernas do adversário. Catatau correu que nem um desesperado e pegou a bola do outro lado. Quando o lateral esquerdo do outro time chegou, Catatau deu a pedalada. Era o segundo que ficava para trás. Só dois obstáculos separavam Catatau da redenção: o goleiro, que não era lá essas coisas, e Serjão, o zagueiro, que com um nome desses não precisa de características. Catatau juntou o último fôlego e deu o pique. Serjão corria como um tanque em direção ao nosso protagonista. Catatau, com medo de se quebrar na dividida, deu um biquinho na bola quando o zagueiro se aproximou. E, no primeiro lance de sorte daqueles quase 460 dias, a bola passou pelo meio das pernas do marcador. Sim leitores, uma janelinha. Só faltava o goleiro, que saiu desesperado do gol. Com um toque pro lado, Catatau o tirou facilmente da jogada. Todos pareciam adivinhar o que aconteceria. A torcida do Juventude não respirava. A torcida adversária também não, mas no fundo torciam por um gol daquele pobre vesgo-corno-abandonado. Então, depois de passar pelo goleiro, Catatau se viu frente a frente com a rede. Com as últimas forças, enfiou o pé na bola e...
Deu no travessão! No travessão!
Ainda não se tinha visto desânimo igual na cidade como aquele. Que merda! Como? Por quê? Ninguém acreditava. Só podia ter macumba naquilo. Todos os presentes no jogo e também os sobreviventes da época, me relataram que aquela foi a noite mais triste do Bonja.
Trinta e seis dias depois, mesmo sem o Catatau fazer um gol, o Juventude chegou à final do citadino, e contra o Santa Cruz. Foi um dos jogos mais feios que já se teve notícia. Um frio desgraçado, cinco cartões vermelhos, doze amarelos, cento e vinte e sete balões, chuva e um chute a gol. Acreditem: um chute a gol! Só no Bonja. Aos trinta e nove do segundo tempo (naquele tempo não havia acréscimo, mas se houvesse seria aos quarenta e oito), Caroço, aquele mesmo, dá o único chute a gol, que o goleiro espalma. De bobeira, olhando no que iria dar, dentro da pequena área, estava Catatau. O goleiro espalma a bola, ela bate na canela de Catatau, volta no goleiro, bate na trave direita, na esquerda, cai quase sem força em cima da linha e entra. Catatau fica mais vesgo, abre o primeiro sorriso daqueles 496 dias, e sai pra comemorar. A pereba acabava ali e com o gol do título. Até hoje, ao lado da trave direita daquele gol, existe a placa que diz:
"Nesse campo jogou Catatau".
É a maior homenagem que alguém poderia receber no Bonja.

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