1) Catatau e a promessa
Lá vai mais uma do Bonja. Na Noiva do Sol, como diz a letra do hino do Bonja, havia dois times que eram dignos das maiores rivalidades do futebol mundial, ficava ali com Inter e Grêmio, River e Boca ou qualquer outro clássico. A verdade era que os jogos envolvendo Santa Cruz e Juventude eram motivos de assunto e discórdia antes, durante e depois dos jogos. Mas isso é assunto pra outra história. O que interessa hoje é o caso de Catatau, o centroavante do Santa. Catatau era moreno, um e setenta e nove, gostava de tomar cachaça com mel enquanto olhava as morenas dançarem nos bailes do Seu Doca. Ninguém se lembrava de ter visto ele com mulher nenhuma. Também, ele não era dos mais bonitos, era meio vesgo o pobre. No futebol era como Ronaldinho, só que com os dois joelhos inteiros e, pelo menos, metade do peso. Ele era o terror da torcida do Juventude. Sempre que o Catatau entrava em campo num clássico, eram pelo menos duas bolas na rede. Aquilo era um terror pra torcida adversária. Num dos bailes, escorado na copa, bebendo a cachaça, mais pra lá do que pra cá, olhando com todas as forças que podia pra Neuza, uma das melhores morenas que já passaram pelo Bonja, Catatau chama Seu Doca e, naquele tom de quem conta o segredo da vida, diz:
- Seu Doca do céu, já gosto dessa morena, por ela eu largava até o Santa Cruz.
Todo mundo já se entregou depois de um pouco de trago. Só que o Catatau se entregou pra pessoa errada. O Seu Doca era juventudista doente. Na mesma hora ele teve uma idéia: fazer a Neuza gostar do Catatau. No outro dia o Seu Doca pediu uma reunião extraordinária no clube. Sem frescura nenhuma, contou a confissão do Catatau e os planos. Todo mundo concordou. Só que havia um grande problema, a Neuza nem olhava pra cara do Catatau. Durante semanas, os juventudistas fizeram visitas pra Neuza, lhe deram presentes como se fossem do Catatau e falaram das qualidades do homem. Pedreiro de mão cheia, não era vadio, bebia de vez em quando, mas isso todo mundo fazia, era pobre mas honesto, enfim, fizeram o lado do Catatau. Marcaram até o casamento, só que o Catatau não sabia de nada. Um dia Seu Doca teve uma conversa séria com ele. Perguntou se ele lembrava da confissão, da promessa. O Catatau disse que estava meio podre, mas era homem de palavra, mesmo que desse-a bêbado. Então o Seu Doca abriu o jogo. Disse que até o casamento estava marcado. O Catatau deu um baita sorriso que o deixou ainda mais vesgo, disse que no outro dia mesmo falaria com o presidente do clube, não ia mais jogar pelo Santa Cruz.
A notícia causou falatório na cidade, os traídos diziam que aquilo era uma pouca vergonha, que, só pra não ser vendido, o Catatau seria corno. Os juventudistas não falavam nada. Esperavam mais que ansiosos o próximo clássico. Sem o Catatau, o Santa Cruz não era nada.
O Catatau e a Neuza casaram na igreja Nossa Senhora de Fátima. Quem pagou tudo foi o presidente do Juventude, que até já tinha arrumado um lugar na estante para o troféu do citadino de campo. Naquele mesmo dia, indignado com o falatório que os torcedores e dirigentes de seu ex-time faziam, Catatau vestiu a camisa verde e branca.
2) O apogeu
No ano seguinte, Catatau era o vesgo mais sorridente do Bonja. Ou o sorridente mais vesgo. O casamento ia bem, a Neuza era morena fogosa e cozinhava bem. Já tinha nascido um guri e outro estava vindo. Os santa-cruzistas ainda lhe viravam a cara. Mas em compensação, os juventudistas o amavam. Com dois gols dele, o Juventude ganhou o citadino daquele ano na final contra o Santa. E nesse ano aconteceria a mesma coisa. De tão faceira que estava, a torcida do Juventude vivia dando presentes pro Catatau, um quarto de vaca, um leitãozinho, um canário belga. Enfim, Catatau agradava mais gente na cidade que o prefeito, que por sinal era do Santa Cruz. Tudo corria bem. Se o Catatau fosse um homem de frescura, com certeza diria que seus dias de bonanza haviam chegado, a felicidade havia batido na porta de sua humilde residência na Vila Pinto, nº 48 e se aquerenciado. Durante um ano, tudo foi bom. Mas então veio a tragédia.
3) O centroavante e os 496 dias- 1º Tomo
Talvez o leitor que teve a paciência e o saco de ter chegado até aqui já tenha inferido o que aconteceu. Sim. A Neuza trocou o Catatau por um vendedor de rapaduras que passou pela cidade. E o pior, deixou o nosso goleador com os dois filhos pequenos. Depois do acontecido, ninguém mais duvidou de praga de santa-cruzista. É um triste fato que o nosso amigo tenha sido corneado logo por um vendedor de rapaduras. São esses os acontecimentos mais duros da vida. Não! Por favor, caro leitor, não ria da desgraça alheia! Isso pode acontecer com qualquer um. Tá bom, serei menos brando. Isso pode acontecer com qualquer um, mas dificilmente vá envolver um vendedor de rapaduras.
Catatau, homem sem frescura, viril, porém apaixonado por sua morena fogosa, ficou abaixo do cu do cachorro. Mal mesmo. Se quando tudo corria bem ele já metia sua cachaça, agora então... E sem mel, porque o doce da vida já tinha ido embora. O pobre vesgo-corno-abandonado não tinha forças para mais nada. Seus serviços de pedreiro foram minguando. Em campo, Catatau era só um fantasma dos gloriosos tempos de goleador. Quando entrava em campo, a camisa já não resplandecia, o nove de suas costas estava desbotado. Mesmo ao som de vaias e gritos de corno, e aqui temos de elevar a hombridade e coragem do nosso protagonista, ele entrava em campo. Mas dentro do lugar que um dia fora seu castelo, não passava mais de uma sombra, um fantasma. Então, desde o primeiro jogo como o pobre vesgo-corno-abandonado, Catatau amargou o primeiro daqueles 496 dias...
Continua na semana que vem, nesse mesmo horário e nesse mesmo canal.
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