sexta-feira, 17 de abril de 2009

Se

Se escrevesse para ela, começaria assim:
Escrevo porque não tenho coragem de falar contigo e tenho certeza que ficaria todo atrapalhado; não tive e não terei oportunidade; e, assim, você não pode ver que estou vermelho...
Sei que não tenho intimidade nenhuma para te falar isso e você deve estar me achando muito louco. Raramente falo contigo, essas coisas. Tento imaginar tua cara de indignação lendo isso e acho que, já de início, devo pedir desculpas. Mas vamos ao que realmente quero escrever, ou ao que vou tentar escrever.
Não sei nada do que se passa na tua vida, portanto, me perdoe por qualquer palavra inoportuna. Lembro que, no primeiro semestre, na única cadeira que fazia contigo, você sentava no lado das janelas, na terceira ou segunda fila. Desde lá eu te olhava, mas o choque cultural que eu sofria naqueles primeiros tempos não me fazia pensar em mais nada. No segundo semestre, eu já estava mais adaptado e você ainda sentava no lado das janelas ( é alguma mania?). Continuava te olhando mas tinha muita saudade de casa para pensar em outra coisa. Entrou outro ano e, numa noite, peguei ônibus contigo. Pelo que me lembre não tivemos muito assunto. E, vou te confessar, não me sinto muito à vontade com conversas em ônibus. Na verdade, também não me sinto bem em ônibus. Da metade para o fim do ano, olhei ainda mais para você. Lembro que, durante a uma hora e meia de uma aula não muito estimulante, eu ficava viajando e pensando como poderia existir uma guria como você: simpática, inteligente, com bom gosto e, como se não bastasse o resto, linda. Ah! E com uma mão linda. É que sempre reparo na mão. Essa mania é minha...
Bom, chegamos nesse semestre, continuei sem saber nada da tua vida, continuei te olhando e te achando cada vez mais incrível. Mas havia uma coisa diferente. Eu achava que você precisava saber disso. Ou melhor, eu precisava que você soubesse disso. E o único jeito de você saber disso era se eu te escrevesse, porque te escrever seria o maior feito que minha covardia permitiria. Mas então me bateram outros medos: você responderia alguma coisa? você pelo menos leria isso?
Escreveria isso para ela. Pena que sou covarde.

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