quarta-feira, 3 de junho de 2009

O tempo de cuecas

Quando me mudei para o 310 do 740 da Vicente da Fontoura, o único morador que vi foi o senhor do 309. Não quero confundir com tantos números, só situar, que fique claro. O senhor do 309 estava com a porta aberta, passeava de cuecas e meias pelo apartamento e, lá de dentro, vinha um cheiro que, na minha cabeça, representava a velhice e o abandono. Outra coisa que pensei foi: o tempo acaba de cuecas. Essa foi a primeira das três vezes que o vi. Na segunda, bati a grade e ele saiu para reclamar. Novamente de cuecas.

Na terceira, havia faltado luz e ele estava reclamando na janela. Depois ele sumiu. Nem sinal do velho, as cuecas ou o cheiro. Sinceramente, a primeira coisa que pensei foi: será que morreu? Não pensei mais no assunto.

Sábado, enquanto o céu desabava, eu saia para comprar um miojo cremoso de quatro queijos. Vi que a porta do 309 estava aberta. Não havia velho, cuecas ou cheiro. Havia, em letras azuis e grandes, uma frase na parede: Parabéns Vicentinho!

Ainda não sei o que aconteceu com o senhor do 309.

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