Mártires
Essa só ouvi. Não estava lá para ver. Mas, por essa, ponho minha mão no fogo, como diz a Dona Ondina. Pois vamos ao causo. Se você não morou numa cidade pequena quando era criança, não sabe o que é infância de verdade. Só uma palavra pode resumir a infância em uma cidade pequena: liberdade. E quando você era filho de mãe solteira, morava com a avó, era pelado, marginalizado e ninguém ligava pra você, limites só existiriam quando a vara de marmelo lambesse seu lombo.
A infância de duas pessoas que conheço foi assim. Meu pai e o Croco. Os dois moravam na Avenida. Mas não se deixe enganar por esse substantivo que faz lembrar ruas largas, calçadas, com casas bonitas e grandiosas. Eles moravam no lado pobre da avenida: O Taipão. Claro que você não sabe o que é O Taipão (assim mesmo, com O maiúsculo pra fortalecer a palavra). O Taipão é um empilhado de pedregulhos que separa a Avenida Manoel Silveira de Azevedo da Sapolândia. Isso mesmo, você não leu errado. O nome é Sapolândia. A primeira ideia que esse nome traz é a de sapos, né? Pois não precisa ser formado em Letras para saber disso. A Sapolândia é, digamos assim, um enorme banhado. Quando chove, alaga tudo e, claro, os sapos dão o ar da graça. Mas, se você acha que esse é um comentário preconceituoso, vá aprender a ler com o Prof. Sérgio. Não foi isso que pretendia dizer. Eu mesmo, que agora me fantasio de porto-alegrense, sou filho da Sapolândia.
Foi nesse lugar de nome tão peculiar que meu pai e o Croco cresceram e aprontaram coisas escabrosas. Vou contar uma delas. O Bonja era abastecido por uma caixa dágua. Não muito alta, em cima do morro entre a Borges e a Laurindo Paim, estava a tal caixa. Quase toda a cidade era abastecida por ela, menos a Sapolândia que não possuia saneamento. As duas criaturas, em períodos nos quais não temiam cair e quebrar o pescoço, andavam de carrinho de rolamento em cima da caixa. Isso, por si só, já era uma sem-vergonhice medonha. Mas o pior vinha depois. Cansados, melecados de tanto suor. As criaturas precisavam tomar banho. Como na Sapolândia não havia encanada, muito menos chuveiros elétricos, eles tinham que dar um jeito. E o jeito era tomar banho na caixa dágua. Assim, a população mais abastada do Bonja tomava a água do banho das duas criaturas. Você pode considerar isso uma falta de consideração bagual. Mas, sem querer arranjar uma desculpa e já arranjando, você já imaginou que essa era uma forma de revolta social? Quero acreditar nisso. Quero acreditar que meu pai e meu padrinho não eram apenas safados. Quero acreditar que eles eram mártires sociais.
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