quinta-feira, 13 de maio de 2010

Eu estava lá!

Da janela do meu quarto, eu podia ver todo o campo do Municipal. Podia ficar de joelhos e olhar o jogo no conforto do lar, tranquilo, sem enfrentar as intempéries do clima bonjesuense. Mas eu ia para lá. Sentava no cordão da pista atlética do Municipal, bem no lado que desemboca na Sapolândia. Assistíamos o jogo eu, meu pai e o Croco.
Geralmente eram peladas as que aconteciam no Municipal. Se eu falar que vi bons jogos naquele campo, estarei faltando com a verdade. Os jogos eram péssimos. Os jogadores não eram maravilhosos e, quando corriam, fatalmente tropeçavam nas bostas de cavalos e vacas. Ah! Esqueci. O Municipal também servia como campo de pastagem.
Mas então.
Ficávamos nós três sentados no fino cordão da pista atlética, passando frio ou calor, levando chuva ou vento, cheirando bosta equina. Você irá se perguntar: se era tão horrível, porque você ia? Eu queria ver jogo. Queria ver gol. Queria ver gente de verdade que jogasse bola. A televisão passava jogos. Eu também os via. Mas aqueles jogadores da caixinha estavão muito distantes de mim. Eu queria fazer parte do jogo e não ficar fora dele, como quem assisti. Ontem, quando sentei no Estádio Olímpico, peguei chuva e fiquei com a bunda molhada, foi do Municipal, do pai e do Croco que lembrei. Estava eu sentado, sozinho, a quilômetros de toda essa nostalgia, quando começou Grêmio X Santos. Tinha medo. Acho que só tinha medo. O Santos era o que todo mundo fala. E o Grêmio... Bom, o Grêmio é aquilo que todo gremista sabe: um sofrimento. Grêmio e facilidade são significados que não se suportam. Ainda cagado, nostálgico e com a bunda molhada, vi o Santos fazer dois gols. Pensei puta-que-o-pariu. Não queria ser platéia de tão trágico espetáculo. Pênalti pra fora e eu lá, sofrendo. Fim de primeiro tempo. Fiz uma promessa pra mim mesmo: se o Grêmio não virar, nunca mais olho uma pelada que seja. Iniciou o segundo tempo e eu crente na promessa. Mas o Grêmio fez um. Fiquei alegre, diminuímos a diferença, mas ainda perdíamos. O time fez dois. Eu e o desconhecido do meu lado nos olhamos. Vimos em nossos olhos refletidos apenas uma coisa: esperança. Meus batimentos aumentaram. Comecei a morder a gola da blusa. O Grêmio tinha que virar. Tinha que virar. Tinha que virar. E virou com um golaço. Quando vi a rede estufada, gritei. Mais 38.000 pessoas gritaram. Virei para o desconhecido do meu lado, ele gritava, levantava as mãos. Gritamos juntos, alto. Nos abraçamos, pulamos juntos. Eu via um episódio épico. E sabia que veria mais. O Grêmio fez o quarto gol. As 38.000 pessoas gritaram ainda mais alto. Eu e o desconhecido pulamos mais. Gritamos mais. O desconhecido chorava. Eu tinha o olho cheio de lágrimas. Não tinha visto nada maior. Nossa empolgação levou uma chuveirada com o terceiro gol do Santos. Mas o árbrito apitou o final. Não sei quantos sentimentos me invadiram. Eu batia palmas, gritava, aliviava o peito. Lembrava novamente do Municipal, do pai, do Croco. Pensei em todas as coisas que contaria para eles quando os visse. Concluí que só uma frase bastaria. Eu estava lá!

0 comentários: