sexta-feira, 9 de julho de 2010

Cadela

Não. Não era uma criança bela nem arteira, dessas que os pais contam os feitos. Era mais silencioso e calmo, chegando até a ser sem graça. Beleza também não emanava do meu pequeno ser. Talvez uma feiúra simpática definisse melhor meu aspecto estético. Como podem observar, desde pequeno me destinava à igualdade medíocre na qual quase todos os humanos se irmanam.
Na infância também não fui mais saliente que os outros. Lembro, principalmente, dos primeiros recreios na escola, quando os meninos se juntavam para o futebol. Não era o primeiro nem o último a ser escolhido, fato que comprova minha habilidade para correr e minha falta de habilidade para correr com a bola. Penso até hoje que, se tentasse ser boleiro, seria, no máximo, um volante, posição que só exige um mínimo de noção do jogador.
Quando saí dos gramados da infância e entrei na adolescência, não deixei minha redoma de mediocridade. Provo isso pela minha estatura: enquanto meus colegas altos eram bem maiores que os professores e os baixos bem mais baixos, eu era médio. Também posso provar minha mediocridade pelo desempenho com o sexo oposto. Nunca consegui beijos das loiras de olhos claros, seios crescidos e bundas desenvolvidas que povoavam os sonhos masturbatórios dos meninos. Beijei as morenas magras, de olhos castanhos e bundas escassas. E aqui, leitores, agradeço a essas morenas, pois elas eram princesas perto das gordas espinhentas e sebosas que habitavam minha vida escolar adolescente.
Por falar em adolescente, deixei de ser um quando entrei na faculdade. Cursei Letras, claro, com o auxílio do governo, pois eu fazia parte daquele núcleo social nem rico nem pobre. Agora que paro para pensar, acho que também esse curso era médio, pois não era tão inútil como Direito e nem tão útil como a Filosofia... Mas enfim, deixemos de devaneios e continuemos desde o ponto em que entrei na faculdade.
Quando entrei na faculdade, comecei a trabalhar – já falei sobre a parcela social que eu integrava. O trabalho não me deu independência financeira, volta e meia tinha de recorrer ao auxílio financeiro de meus pais, o que me tornava um independente/dependente, se assim posso dizer. Também foi na faculdade que tomei consciência da minha mediocridade. Não era um mau aluno. Frequentava às aulas, lia o que pediam, mas não me esforçava. A nota passável me bastava. Não queria ter um belo histórico, um boletim primoroso. Queria, simplesmente, passar.
Passando com o que dava, me formei e tornei uma espécie de professor/escritor. Não fazia bem nenhuma das duas coisas. Os alunos não viam em mim um exemplo, nem gostavam tanto da minha aula, pelo menos sei que não me consideravam o professor mais chato com a aula mais inútil. Como escritor, não fiz nada genial. Consegui alguns elogios pelos nomes dos personagens, pela tentativa de busca da originalidade – vejam bem, pela “tentativa” de busca. Enfim, nada demais. Nada que me tornasse imortal ou bem lembrado.
Disse a vocês no primeiro parágrafo, desde pequeno estava fadado à mediocridade. Agora atentem para essas últimas coisas que digo: essa cadela é o pior câncer.

1 comentários:

Ramiro disse...

"Agora que paro para pensar, acho que também esse curso era médio, pois não era tão inútil como Direito e nem tão útil como a Filosofia..."; Irônico e muito bom, abraço.