E o nosso personagem se arrumou naquela noite de sábado. Saiu apressado. Clélia o esperava, ansiosa. Poucos minutos atrás havia ligado e dito para ele chegar rápido, pois ela estava com pressa. Nosso personagem, cujo nome, por motivos éticos, não posso revelar, pegou seu VT e se encaminhou até a parada mais próxima de sua casa. Enquanto caminhava pela Avenida Bento Gonçalves, o persongem respirava o ar um pouco menos poluído da noite e olhava até onde suas bolitas alcançavam. Não era fácil aquela Avenida. Vez ou outra ele tinha encontros desagradáveis com ladrões e travestis, ainda não se acostumara com os últimos. Quando chegava na parada, nosso amigo avistou a linha JARI-BENTO. "Estou com sorte", pensou. Talvez aquela fosse sua agradável noite de prazer e sorte. Ele merecia: era, antes de tudo, um forte. Naquele mesmo sábado, havia trabalhado até as nove da noite. Chegou em casa cansado e talicoisa, é verdade. Mas a lembrança de Clélia fez com que o personagem puxasse suas últimas forças e saísse para a noite de sábado. Seu encontro amoroso/sexual com Clélia era aguardado, por ambos, com impaciência. Claro que você, leitor atento que perde tempo lendo historietas como essa, já percebeu o busilis. O personagem era pobre e seu par romântico de uma fealdade marcante.
Mas larguemos de mão concepções estéticas ou análises sociais e voltemos à historieta... Nosso personagem, sentado no fundo do JARI-BENTO, olhava as luzes que a pacífica e singela Porto Alegre lhe oferecia. Seria bonito terminar a historieta aqui. Um homem a caminho de um encontro a contemplar as estrelas. Mas essa narrativa tem um toque real. De repente, o ônibus parou. Ele pensou "Puta merda, a Clélia vai ficar louca comigo". Nesse momento, nosso personagem viu uma dessas senhoras que, nas noites de sábado, se deslocam de seus lares até a Casa de Portugal. Mas essa senhora não aparentava a serenidade de quem ia ao local referido. A senhora estava enrijecida, com os dedos tortos. Quase sem voz, ela disse que estava morrendo, que seu peito ia estourar... Estava à beira de um ataque cardíaco!
O personagem e as outras duas pessoas do ônibus - motorista e cobrador - tentaram prestar socorro à pobre senhora, mas, não tendo muito domínio sobre questões da medicina, palestraram e decidiram levá-la ao HPS, atitude que parecia ser a mais correta. Nosso protagonista se absteve de acompanhar a enferma e os dois homens ao hospital - tinha um compromisso inadiável...
Desprovido do transporte, o personagem decidiu fazer o resto do trecho a pé. Era acostumado a caminhadas, era pobre. Somente alguma coisa realmente grave o faria desistir do encontro com Clélia. E, é claro, essa coisa aconteceu.
Quando caminhava pelo viaduto da João Pessoa, o personagem sentiu a pior dor de barriga da história da cidade. Dores horríveis o acossavam, barulhos gritantes saiam do que parecia ser sua barriga. Quando seu ânus começou a afrouxar-se, o personagem percebeu a gravidade da situação. Desesperado, com o suor inundando a testa, ele olhou para baixo do viaduto. Não veria Clélia naquela noite.
0 comentários:
Postar um comentário