terça-feira, 24 de agosto de 2010

Breno

Há cinco anos, passava minhas tardes no bar. Cinco anos. Já contei que, naquele período, convivi com figuras peculiares. Falei do Bigisto, mas não do Breno, seu irmão. O Breno também tinha várias alcunhas: J.B., José Breno, Zé Breno, Breno, Surucuá - essas eram as que eu conhecia.
Como o Bigisto, o Breno teve seus dias de glória e riqueza. Em alguma época de sua vida, foi um esbanjador, aproveitador, vagabundo ou seja lá como vocês querem chamar o sujeito que em alguma parte da vida chuta o balde.
Depois de algumas bebedeiras e um bocado de dinheiro jogado fora, o Breno casou. Sua senhora de cujo nome não lembro era figura cativante e respeitosa. Sim, respeitosa. Embora seu passado fosse conturbado, depois de casada, a senhora foi de conduta irreparável. No período do casamento, o Breno até tomou jeito - bebeu menos, gastou menos... essas coisas.
Seria importante dizer que o Breno teve um filho, um pequeno ser com nome de tirano: Átila. Mas não quero que outros personagens entrem na história. Deixemos Átila de lado.
Depois da morte da mulher, a vida de nosso protagonista tomou outros rumos. O principal deles era, claro, o do copo. O Breno passava boa parte dos seus dias de aposentado dentro dos bares do Bonja. Bebia em todos, e, mais do que bebia, devia em todos. Um dos bares onde ele bebia e devia era o do meu pai. Havia semanas nas quais o Breno passava as tardes comigo, contando causos que já havia contado milhares de vezes, rezando a "Ave Maria" em francês, resmungando. Apesar de me chamar de Fabiano, eu gostava do Breno. Tinha um ar de mistério envolvendo aquela figura, ele era mais velho, vivido e tinha passado por uma das grandes tragédias que podem acontecer: empobrecido. Se um chinelo nunca sair da merda, ele nunca vai ficar triste, afinal, nasceu naquela condição, acostumou-se a ela e conformou-se com ela. Mas, se um homem sentiu o gosto doce e pesado da riqueza, ele dificilmente irá esquecê-lo. Por Breno pertencer a esse último grupo, eu o olhava de um modo diferente. Sua alma, de alguma maneira, me parecia trágica.
Desde a percepção dos meus quinze anos não via o Breno. Nem o verei mais. Não fui só eu que parti, ele também. Na semana passada, Breno se entregou para o inverno do Bonja. Numa madrugada, morreu no boteco, bebendo da vida.

0 comentários: