Do que Bené gostava mesmo era da putaria. Tentava esconder seus desejos entre bíblias, cantos e gravatas de crente. Mas só tentava. Do fundo de Bené, aflorava um tarado, um putanheiro de marca maior.
Sempre teve desejos, o Bené. Antes, na adolescência, conseguia contê-los. Quando morava com sua tia Tetéia, aquela Tetéia das coxas grossas, peitos grandes, cabelos compridos e saia (era crente a tia), matava seus desejos com masturbações semanais. Só tocava uma por semana por achar que mais levariam-no ao inferno.
Aos vinte e dois, Bené quase entregou-se à tentação. Nos ensaios do coral da igreja, a mulatinha Rose o provocava. Rose decotava os peitos e rebolava as ancas com aquela magia ardente que somente as crentes adolescentes possuem. Depois de ensaiados os hinos, Rose vinha falar com Bené, perguntava se iriam juntos pra casa, os dois moravam na Vila Pinto. Bené, no começo, não via maldade nas conversas de Rose, afinal, era uma irmã... Me digam, senhores leitores, que irmão deixaria uma irmão mulata e gostosa como a Rose voltar sozinha para casa enfrentando o frio do Bonja e os possíveis tarados? Respondam por vocês. Só o que posso afirmar é que eu Bené não deixaríamos. Por isso, sempre que o culto acabava, Bené caminhava ao lado da irmã Rose. Enquanto andavam, falavam do Senhor, dos cultos, dos hinos. Mas as conversas mudavam o tom na medida em que os dois se acostumavam um com o outro. Dos papos carolas, foram para as fofocas sobre o pessoal da igreja e, das fofocas, meus amigos, foram para as tentações.
Quando começaram a falar sobre tentações, as caminhadas se demoraram, a volta já não se fazia tão rápida. Andavam como se os passos fossem lentas masturbações.
Numa das noites do longo inverno do Bonja, Rose sentiu frio e pediu que Bené a abraçasse. Envergonhado, mas segurando um sorriso de beiços largos, Bené passou o braço pelos ombros de Rose. Não era um inverno de neve e geadas que impedia a moça de usar decotes. Bené se dava conta disso quando seus olhos esbugalhados se deparavam com seios que subiam e desciam, subiam e desciam...
Somente olhos não matam as vontades da carne. Bené tinha que tocá-los. Mais que tocá-los, senti-los.
Bené levou os dedos até os relevos que surgiam daquele corpo. Tocou-os. Rose não disse nada, apenas olhou para Bené antes de fechar os olhos. Bené aprendeu que um toque leva a outros. Fez com que seus beiços rosados amassassem os de Rose. A mulata saiu com uma língua atrevida. Deu-se um entrevero de línguas. Tudo se encaminhava. A noite, os toques, as línguas mostravam que tudo se encaminhava.
Mas Bené pensou.
Com o defeito daqueles qe ainda são tolos, Bené pensou.
Pensou em Aristides, o pastor.
Pensou com tanta força que parecia ver o pastor na sua frente, os cabelos alisados à força, o pescoço estourando o colarinho, o conhecido mau hálito fugindo da Boca.
Bené largou a luta de bocas e correu. Correu até não ver os peitos de Rose, até não sentir o mau hálito do pastor.
Daquele momento, até os trinta anos, a vida de Bené foi outra. Passou oito anos apenas orando, trabalhando e indo ao culto. Depois do episódio Rose, viu a mulata apenas duas vezes. Depois disso, ela foi pra vida - aquela vida. Durante o tempo de reclusão e limpeza espiritual, Bené lutava contra o dragão da tentação. Mal sabia ele que, nos seus trinta anos, apareceria o maior dragão de todos: Maria.
A única coisa simples em Maria era o nome, porque as curvas eram complexas, os atributos merecedores dos mais desconhecidos adjetivos. Se esse que vos escreve encontrasse Maria na rua, diria:
- Puta-que-o-pariu!
Maria não era crente, era puta. À noite, trabalhava na Maloca, de dia, era vizinha de Bené. O recluso cabaço nem mesmo olhava para a casa pequena e desengonçada de sua vizinha. Não tinha ares aristocráticos ou preconceitos o Bené. Apenas medo. Medo que as coxas viessem até sua casa. Medo de que os peitos pulassem em sua direção. Medo de que a bunda sorrisse pra ele - os machos sabem de qual sorriso falo.
Deu-se o caso que, numa quinta-feira pela tarde, Bené saísse mais cedo de seu serviço no armazém do Tariatti. Ao chegar em casa, Bené nem olhou para o lado. Entrou em casa quase correndo.
Chegou e, como de costume, fez seus louvores ao Senhor. Quando ia ligar o fogão para esquentar o café, escutou batidas. Abriu a porta e viu Maria. Juro que um risco de baba escorreu de sua boca na hora. Era verão, e o pouco vestido a deixava à mostra.
Dessa vez, Bené não pensou.
Puxou a moça para dentro e conheceu o bom da vida.
Nem preciso dizer que o homem esqueceu a igreja, o pastor, os hinos. Virou cantor, bêbado e o maior putanheiro do Bonja. Até mesmo nas noite de geada se ouvem seus girtos de louvor à putaria. Sua primeira música teve a seguinte dedicatória:
"Para Maria, de lábios molhados inesquecíveis".
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