Comecei o último semestre de Letras. Em agosto pretendo estar formado. Essa jornada vai acabar. Pensei em terminar com o blog também. As postagens não são frequentes há muito. Mas decidi fazê-lo só quando me formar, até lá, tentarei escrever uma série de histórias que seguirão cronologicamente meu tempo no Bonja, na Letras e em Porto Alegre. Pretendo que este post seja o primeiro da sequência. Por isso, depois de alguns espaços dramáticos, você poderá ler a primeira das histórias.
Quando pensei em contar a jornada, entendi que deveria começar antes dela ter iniciado. É do dia anterior a minha vinda para Porto Alegre que inicio.
Era um domingo de fevereiro de 2007, fazia um sol fraco no Bonja. Era um dia bonito, um dos mais bonitos que vi na cidade. Eu achava tão bonito porque era o último que passaria lá. As malas já estavam prontas desde o dia anterior. Não era muita coisa: algumas roupas, dois livros de Português, roupa de cama e um par de tênis. O que mais lembro é do par de tênis, era o único que tinha e estava tão liso que um furo seria inevitável depois de mais alguns passos. Era com eles que eu começaria minha jornada.
Não sabia bem o que fazer naquele dia. Ficar em casa? Pensar no que aconteceria? Sair de casa?
Preferi essa última. Caminhei pelas ruas que mais conhecia. Aquelas que levavam ao colégio, à praça, ao trabalho dos meus pais, ao bar, à casa dos meus amigos, à casa de algumas gurias.
Caminhava para encontrar alguém, para guardar a fotografia daqueles lugares na minha cabeça. Eles representavam dezessete anos da minha história.
Até aquele domingo, eu quis partir. Passei o ano todo pensando em partir. Não poderia ser alguma coisa se ficasse no Bonja. A vida medíocre me sugaria. Meu destino, ali, era ser ninguém. Quando entrei no terceiro ano, entendi que só iria embora por um milagre. Eu era um baita chinelo. Nunca teria como pagar uma faculdade. Não interessava se eu era o melhor aluno da turma, se eu era mais esforçado que os outros. Minha formação, uma hora ou outra, seria tolida pela minha falta de grana. Eu achava que o final do terceiro ano era a tal hora. Mas um milagre, se é que posso dizer assim, aconteceu. Ganhei uma bolsa, fui premiado pela minha pobreza. E era esse prêmio que me fazia caminhar pelas ruas do Bonja nostálgico e medroso.
Eu não tinha ideia do que iria acontecer. Não vou mentir, estava todo cagado.
Depois de ruminar meus temores e saudades, voltei para casa, era quase noite. O ônibus sairia às 6 horas do outro dia. A mudança começaria cedo.
Em casa, depois do banho e da janta, me despedi do Paulo. Ele me deu boa sorte. Quase chorei naquela hora, não sei se de desespero ou outra coisa qualquer. Antes de dormir, meu pai chamou e me deu dinheiro, 80 reais. Disse que era só o que poderia me dar. Não reclamei. Quase nunca reclamava para ele. Sabia que era pouco, mas eu daria um jeito.
Dali para a frente, eu teria de dar um jeito, no que quer que fosse.
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