sexta-feira, 1 de abril de 2011
Chance
A primeira semana em Porto Alegre foi uma das piores que tive. Não conseguia dormir por causa do calor e quando pegava no sono delirava com cronogramas e ementas de disciplinas. Tudo me deixava apreensivo. Pegar ônibus era uma luta. No começo, não sabia nem por qual porta subir. Nunca tinha certeza do lugar onde tinha que parar. Sempre ficava em pé, de medo. As aulas me apavoravam. Eu não conseguiria dar conta daquelas apresentações, seminários e dezenas de outras coisas inúteis que preenchem o primeiro semestre de um curso. Também havia o fato de que eu não havia lido mais da metade das coisas que os professores falavam. Foi um terror intelectual aquela primeira semana. Não lembro de ter trocado muitas palavras com meus colegas naquela semana. Eu era um legítimo bicho do mato. Trazia um livro, entrava na sala cedo, lia até que começasse a tortura. Eu tinha quase certeza de que era um dos menos privilegiados intelectualmente. Trocando em miúdos, eu me achava o mais burro da turma. Lembro do primeiro sábado que seguiu a semana terrível. Depois de ir até a PUC para ter aula de Libras, eu estava morto. Minha cabeça doía, meus olhos pesavam de sono e sentia muita vontade de chorar, dar um pé em toda aquela frescura de faculdade e voltar pra casa. Na tarde desse sábado, minha mãe telefonou. Quando falei com ela, meus olhos se encheram de água. Senti vontade de dizer que queria voltar, que não ia dar conta de tudo o que pediam, que eu era um burro perto dos outros... Mas não disse. Não disse por causa da vergonha. Seria um vexame eu voltar correndo pra casa depois de uma semana. Tinha que aguentar. Um chinelo como eu não teria outra chance.
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