sexta-feira, 1 de abril de 2011

Chance

A primeira semana em Porto Alegre foi uma das piores que tive. Não conseguia dormir por causa do calor e quando pegava no sono delirava com cronogramas e ementas de disciplinas. Tudo me deixava apreensivo. Pegar ônibus era uma luta. No começo, não sabia nem por qual porta subir. Nunca tinha certeza do lugar onde tinha que parar. Sempre ficava em pé, de medo. As aulas me apavoravam. Eu não conseguiria dar conta daquelas apresentações, seminários e dezenas de outras coisas inúteis que preenchem o primeiro semestre de um curso. Também havia o fato de que eu não havia lido mais da metade das coisas que os professores falavam. Foi um terror intelectual aquela primeira semana. Não lembro de ter trocado muitas palavras com meus colegas naquela semana. Eu era um legítimo bicho do mato. Trazia um livro, entrava na sala cedo, lia até que começasse a tortura. Eu tinha quase certeza de que era um dos menos privilegiados intelectualmente. Trocando em miúdos, eu me achava o mais burro da turma. Lembro do primeiro sábado que seguiu a semana terrível. Depois de ir até a PUC para ter aula de Libras, eu estava morto. Minha cabeça doía, meus olhos pesavam de sono e sentia muita vontade de chorar, dar um pé em toda aquela frescura de faculdade e voltar pra casa. Na tarde desse sábado, minha mãe telefonou. Quando falei com ela, meus olhos se encheram de água. Senti vontade de dizer que queria voltar, que não ia dar conta de tudo o que pediam, que eu era um burro perto dos outros... Mas não disse. Não disse por causa da vergonha. Seria um vexame eu voltar correndo pra casa depois de uma semana. Tinha que aguentar. Um chinelo como eu não teria outra chance.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O domingo

Comecei o último semestre de Letras. Em agosto pretendo estar formado. Essa jornada vai acabar. Pensei em terminar com o blog também. As postagens não são frequentes há muito. Mas decidi fazê-lo só quando me formar, até lá, tentarei escrever uma série de histórias que seguirão cronologicamente meu tempo no Bonja, na Letras e em Porto Alegre. Pretendo que este post seja o primeiro da sequência. Por isso, depois de alguns espaços dramáticos, você poderá ler a primeira das histórias.


Quando pensei em contar a jornada, entendi que deveria começar antes dela ter iniciado. É do dia anterior a minha vinda para Porto Alegre que inicio.
Era um domingo de fevereiro de 2007, fazia um sol fraco no Bonja. Era um dia bonito, um dos mais bonitos que vi na cidade. Eu achava tão bonito porque era o último que passaria lá. As malas já estavam prontas desde o dia anterior. Não era muita coisa: algumas roupas, dois livros de Português, roupa de cama e um par de tênis. O que mais lembro é do par de tênis, era o único que tinha e estava tão liso que um furo seria inevitável depois de mais alguns passos. Era com eles que eu começaria minha jornada.
Não sabia bem o que fazer naquele dia. Ficar em casa? Pensar no que aconteceria? Sair de casa?
Preferi essa última. Caminhei pelas ruas que mais conhecia. Aquelas que levavam ao colégio, à praça, ao trabalho dos meus pais, ao bar, à casa dos meus amigos, à casa de algumas gurias.
Caminhava para encontrar alguém, para guardar a fotografia daqueles lugares na minha cabeça. Eles representavam dezessete anos da minha história.
Até aquele domingo, eu quis partir. Passei o ano todo pensando em partir. Não poderia ser alguma coisa se ficasse no Bonja. A vida medíocre me sugaria. Meu destino, ali, era ser ninguém. Quando entrei no terceiro ano, entendi que só iria embora por um milagre. Eu era um baita chinelo. Nunca teria como pagar uma faculdade. Não interessava se eu era o melhor aluno da turma, se eu era mais esforçado que os outros. Minha formação, uma hora ou outra, seria tolida pela minha falta de grana. Eu achava que o final do terceiro ano era a tal hora. Mas um milagre, se é que posso dizer assim, aconteceu. Ganhei uma bolsa, fui premiado pela minha pobreza. E era esse prêmio que me fazia caminhar pelas ruas do Bonja nostálgico e medroso.
Eu não tinha ideia do que iria acontecer. Não vou mentir, estava todo cagado.
Depois de ruminar meus temores e saudades, voltei para casa, era quase noite. O ônibus sairia às 6 horas do outro dia. A mudança começaria cedo.
Em casa, depois do banho e da janta, me despedi do Paulo. Ele me deu boa sorte. Quase chorei naquela hora, não sei se de desespero ou outra coisa qualquer. Antes de dormir, meu pai chamou e me deu dinheiro, 80 reais. Disse que era só o que poderia me dar. Não reclamei. Quase nunca reclamava para ele. Sabia que era pouco, mas eu daria um jeito.
Dali para a frente, eu teria de dar um jeito, no que quer que fosse.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Para Maria

Do que Bené gostava mesmo era da putaria. Tentava esconder seus desejos entre bíblias, cantos e gravatas de crente. Mas só tentava. Do fundo de Bené, aflorava um tarado, um putanheiro de marca maior.

Sempre teve desejos, o Bené. Antes, na adolescência, conseguia contê-los. Quando morava com sua tia Tetéia, aquela Tetéia das coxas grossas, peitos grandes, cabelos compridos e saia (era crente a tia), matava seus desejos com masturbações semanais. Só tocava uma por semana por achar que mais levariam-no ao inferno.

Aos vinte e dois, Bené quase entregou-se à tentação. Nos ensaios do coral da igreja, a mulatinha Rose o provocava. Rose decotava os peitos e rebolava as ancas com aquela magia ardente que somente as crentes adolescentes possuem. Depois de ensaiados os hinos, Rose vinha falar com Bené, perguntava se iriam juntos pra casa, os dois moravam na Vila Pinto. Bené, no começo, não via maldade nas conversas de Rose, afinal, era uma irmã... Me digam, senhores leitores, que irmão deixaria uma irmão mulata e gostosa como a Rose voltar sozinha para casa enfrentando o frio do Bonja e os possíveis tarados? Respondam por vocês. Só o que posso afirmar é que eu Bené não deixaríamos. Por isso, sempre que o culto acabava, Bené caminhava ao lado da irmã Rose. Enquanto andavam, falavam do Senhor, dos cultos, dos hinos. Mas as conversas mudavam o tom na medida em que os dois se acostumavam um com o outro. Dos papos carolas, foram para as fofocas sobre o pessoal da igreja e, das fofocas, meus amigos, foram para as tentações.
Quando começaram a falar sobre tentações, as caminhadas se demoraram, a volta já não se fazia tão rápida. Andavam como se os passos fossem lentas masturbações.
Numa das noites do longo inverno do Bonja, Rose sentiu frio e pediu que Bené a abraçasse. Envergonhado, mas segurando um sorriso de beiços largos, Bené passou o braço pelos ombros de Rose. Não era um inverno de neve e geadas que impedia a moça de usar decotes. Bené se dava conta disso quando seus olhos esbugalhados se deparavam com seios que subiam e desciam, subiam e desciam...
Somente olhos não matam as vontades da carne. Bené tinha que tocá-los. Mais que tocá-los, senti-los.
Bené levou os dedos até os relevos que surgiam daquele corpo. Tocou-os. Rose não disse nada, apenas olhou para Bené antes de fechar os olhos. Bené aprendeu que um toque leva a outros. Fez com que seus beiços rosados amassassem os de Rose. A mulata saiu com uma língua atrevida. Deu-se um entrevero de línguas. Tudo se encaminhava. A noite, os toques, as línguas mostravam que tudo se encaminhava.
Mas Bené pensou.
Com o defeito daqueles qe ainda são tolos, Bené pensou.
Pensou em Aristides, o pastor.
Pensou com tanta força que parecia ver o pastor na sua frente, os cabelos alisados à força, o pescoço estourando o colarinho, o conhecido mau hálito fugindo da Boca.
Bené largou a luta de bocas e correu. Correu até não ver os peitos de Rose, até não sentir o mau hálito do pastor.
Daquele momento, até os trinta anos, a vida de Bené foi outra. Passou oito anos apenas orando, trabalhando e indo ao culto. Depois do episódio Rose, viu a mulata apenas duas vezes. Depois disso, ela foi pra vida - aquela vida. Durante o tempo de reclusão e limpeza espiritual, Bené lutava contra o dragão da tentação. Mal sabia ele que, nos seus trinta anos, apareceria o maior dragão de todos: Maria.
A única coisa simples em Maria era o nome, porque as curvas eram complexas, os atributos merecedores dos mais desconhecidos adjetivos. Se esse que vos escreve encontrasse Maria na rua, diria:
- Puta-que-o-pariu!
Maria não era crente, era puta. À noite, trabalhava na Maloca, de dia, era vizinha de Bené. O recluso cabaço nem mesmo olhava para a casa pequena e desengonçada de sua vizinha. Não tinha ares aristocráticos ou preconceitos o Bené. Apenas medo. Medo que as coxas viessem até sua casa. Medo de que os peitos pulassem em sua direção. Medo de que a bunda sorrisse pra ele - os machos sabem de qual sorriso falo.
Deu-se o caso que, numa quinta-feira pela tarde, Bené saísse mais cedo de seu serviço no armazém do Tariatti. Ao chegar em casa, Bené nem olhou para o lado. Entrou em casa quase correndo.
Chegou e, como de costume, fez seus louvores ao Senhor. Quando ia ligar o fogão para esquentar o café, escutou batidas. Abriu a porta e viu Maria. Juro que um risco de baba escorreu de sua boca na hora. Era verão, e o pouco vestido a deixava à mostra.
Dessa vez, Bené não pensou.
Puxou a moça para dentro e conheceu o bom da vida.
Nem preciso dizer que o homem esqueceu a igreja, o pastor, os hinos. Virou cantor, bêbado e o maior putanheiro do Bonja. Até mesmo nas noite de geada se ouvem seus girtos de louvor à putaria. Sua primeira música teve a seguinte dedicatória:
"Para Maria, de lábios molhados inesquecíveis".

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Breno

Há cinco anos, passava minhas tardes no bar. Cinco anos. Já contei que, naquele período, convivi com figuras peculiares. Falei do Bigisto, mas não do Breno, seu irmão. O Breno também tinha várias alcunhas: J.B., José Breno, Zé Breno, Breno, Surucuá - essas eram as que eu conhecia.
Como o Bigisto, o Breno teve seus dias de glória e riqueza. Em alguma época de sua vida, foi um esbanjador, aproveitador, vagabundo ou seja lá como vocês querem chamar o sujeito que em alguma parte da vida chuta o balde.
Depois de algumas bebedeiras e um bocado de dinheiro jogado fora, o Breno casou. Sua senhora de cujo nome não lembro era figura cativante e respeitosa. Sim, respeitosa. Embora seu passado fosse conturbado, depois de casada, a senhora foi de conduta irreparável. No período do casamento, o Breno até tomou jeito - bebeu menos, gastou menos... essas coisas.
Seria importante dizer que o Breno teve um filho, um pequeno ser com nome de tirano: Átila. Mas não quero que outros personagens entrem na história. Deixemos Átila de lado.
Depois da morte da mulher, a vida de nosso protagonista tomou outros rumos. O principal deles era, claro, o do copo. O Breno passava boa parte dos seus dias de aposentado dentro dos bares do Bonja. Bebia em todos, e, mais do que bebia, devia em todos. Um dos bares onde ele bebia e devia era o do meu pai. Havia semanas nas quais o Breno passava as tardes comigo, contando causos que já havia contado milhares de vezes, rezando a "Ave Maria" em francês, resmungando. Apesar de me chamar de Fabiano, eu gostava do Breno. Tinha um ar de mistério envolvendo aquela figura, ele era mais velho, vivido e tinha passado por uma das grandes tragédias que podem acontecer: empobrecido. Se um chinelo nunca sair da merda, ele nunca vai ficar triste, afinal, nasceu naquela condição, acostumou-se a ela e conformou-se com ela. Mas, se um homem sentiu o gosto doce e pesado da riqueza, ele dificilmente irá esquecê-lo. Por Breno pertencer a esse último grupo, eu o olhava de um modo diferente. Sua alma, de alguma maneira, me parecia trágica.
Desde a percepção dos meus quinze anos não via o Breno. Nem o verei mais. Não fui só eu que parti, ele também. Na semana passada, Breno se entregou para o inverno do Bonja. Numa madrugada, morreu no boteco, bebendo da vida.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Encontro

E o nosso personagem se arrumou naquela noite de sábado. Saiu apressado. Clélia o esperava, ansiosa. Poucos minutos atrás havia ligado e dito para ele chegar rápido, pois ela estava com pressa. Nosso personagem, cujo nome, por motivos éticos, não posso revelar, pegou seu VT e se encaminhou até a parada mais próxima de sua casa. Enquanto caminhava pela Avenida Bento Gonçalves, o persongem respirava o ar um pouco menos poluído da noite e olhava até onde suas bolitas alcançavam. Não era fácil aquela Avenida. Vez ou outra ele tinha encontros desagradáveis com ladrões e travestis, ainda não se acostumara com os últimos. Quando chegava na parada, nosso amigo avistou a linha JARI-BENTO. "Estou com sorte", pensou. Talvez aquela fosse sua agradável noite de prazer e sorte. Ele merecia: era, antes de tudo, um forte. Naquele mesmo sábado, havia trabalhado até as nove da noite. Chegou em casa cansado e talicoisa, é verdade. Mas a lembrança de Clélia fez com que o personagem puxasse suas últimas forças e saísse para a noite de sábado. Seu encontro amoroso/sexual com Clélia era aguardado, por ambos, com impaciência. Claro que você, leitor atento que perde tempo lendo historietas como essa, já percebeu o busilis. O personagem era pobre e seu par romântico de uma fealdade marcante.
Mas larguemos de mão concepções estéticas ou análises sociais e voltemos à historieta... Nosso personagem, sentado no fundo do JARI-BENTO, olhava as luzes que a pacífica e singela Porto Alegre lhe oferecia. Seria bonito terminar a historieta aqui. Um homem a caminho de um encontro a contemplar as estrelas. Mas essa narrativa tem um toque real. De repente, o ônibus parou. Ele pensou "Puta merda, a Clélia vai ficar louca comigo". Nesse momento, nosso personagem viu uma dessas senhoras que, nas noites de sábado, se deslocam de seus lares até a Casa de Portugal. Mas essa senhora não aparentava a serenidade de quem ia ao local referido. A senhora estava enrijecida, com os dedos tortos. Quase sem voz, ela disse que estava morrendo, que seu peito ia estourar... Estava à beira de um ataque cardíaco!
O personagem e as outras duas pessoas do ônibus - motorista e cobrador - tentaram prestar socorro à pobre senhora, mas, não tendo muito domínio sobre questões da medicina, palestraram e decidiram levá-la ao HPS, atitude que parecia ser a mais correta. Nosso protagonista se absteve de acompanhar a enferma e os dois homens ao hospital - tinha um compromisso inadiável...
Desprovido do transporte, o personagem decidiu fazer o resto do trecho a pé. Era acostumado a caminhadas, era pobre. Somente alguma coisa realmente grave o faria desistir do encontro com Clélia. E, é claro, essa coisa aconteceu.
Quando caminhava pelo viaduto da João Pessoa, o personagem sentiu a pior dor de barriga da história da cidade. Dores horríveis o acossavam, barulhos gritantes saiam do que parecia ser sua barriga. Quando seu ânus começou a afrouxar-se, o personagem percebeu a gravidade da situação. Desesperado, com o suor inundando a testa, ele olhou para baixo do viaduto. Não veria Clélia naquela noite.

Cadela

Não. Não era uma criança bela nem arteira, dessas que os pais contam os feitos. Era mais silencioso e calmo, chegando até a ser sem graça. Beleza também não emanava do meu pequeno ser. Talvez uma feiúra simpática definisse melhor meu aspecto estético. Como podem observar, desde pequeno me destinava à igualdade medíocre na qual quase todos os humanos se irmanam.
Na infância também não fui mais saliente que os outros. Lembro, principalmente, dos primeiros recreios na escola, quando os meninos se juntavam para o futebol. Não era o primeiro nem o último a ser escolhido, fato que comprova minha habilidade para correr e minha falta de habilidade para correr com a bola. Penso até hoje que, se tentasse ser boleiro, seria, no máximo, um volante, posição que só exige um mínimo de noção do jogador.
Quando saí dos gramados da infância e entrei na adolescência, não deixei minha redoma de mediocridade. Provo isso pela minha estatura: enquanto meus colegas altos eram bem maiores que os professores e os baixos bem mais baixos, eu era médio. Também posso provar minha mediocridade pelo desempenho com o sexo oposto. Nunca consegui beijos das loiras de olhos claros, seios crescidos e bundas desenvolvidas que povoavam os sonhos masturbatórios dos meninos. Beijei as morenas magras, de olhos castanhos e bundas escassas. E aqui, leitores, agradeço a essas morenas, pois elas eram princesas perto das gordas espinhentas e sebosas que habitavam minha vida escolar adolescente.
Por falar em adolescente, deixei de ser um quando entrei na faculdade. Cursei Letras, claro, com o auxílio do governo, pois eu fazia parte daquele núcleo social nem rico nem pobre. Agora que paro para pensar, acho que também esse curso era médio, pois não era tão inútil como Direito e nem tão útil como a Filosofia... Mas enfim, deixemos de devaneios e continuemos desde o ponto em que entrei na faculdade.
Quando entrei na faculdade, comecei a trabalhar – já falei sobre a parcela social que eu integrava. O trabalho não me deu independência financeira, volta e meia tinha de recorrer ao auxílio financeiro de meus pais, o que me tornava um independente/dependente, se assim posso dizer. Também foi na faculdade que tomei consciência da minha mediocridade. Não era um mau aluno. Frequentava às aulas, lia o que pediam, mas não me esforçava. A nota passável me bastava. Não queria ter um belo histórico, um boletim primoroso. Queria, simplesmente, passar.
Passando com o que dava, me formei e tornei uma espécie de professor/escritor. Não fazia bem nenhuma das duas coisas. Os alunos não viam em mim um exemplo, nem gostavam tanto da minha aula, pelo menos sei que não me consideravam o professor mais chato com a aula mais inútil. Como escritor, não fiz nada genial. Consegui alguns elogios pelos nomes dos personagens, pela tentativa de busca da originalidade – vejam bem, pela “tentativa” de busca. Enfim, nada demais. Nada que me tornasse imortal ou bem lembrado.
Disse a vocês no primeiro parágrafo, desde pequeno estava fadado à mediocridade. Agora atentem para essas últimas coisas que digo: essa cadela é o pior câncer.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Eu estava lá!

Da janela do meu quarto, eu podia ver todo o campo do Municipal. Podia ficar de joelhos e olhar o jogo no conforto do lar, tranquilo, sem enfrentar as intempéries do clima bonjesuense. Mas eu ia para lá. Sentava no cordão da pista atlética do Municipal, bem no lado que desemboca na Sapolândia. Assistíamos o jogo eu, meu pai e o Croco.
Geralmente eram peladas as que aconteciam no Municipal. Se eu falar que vi bons jogos naquele campo, estarei faltando com a verdade. Os jogos eram péssimos. Os jogadores não eram maravilhosos e, quando corriam, fatalmente tropeçavam nas bostas de cavalos e vacas. Ah! Esqueci. O Municipal também servia como campo de pastagem.
Mas então.
Ficávamos nós três sentados no fino cordão da pista atlética, passando frio ou calor, levando chuva ou vento, cheirando bosta equina. Você irá se perguntar: se era tão horrível, porque você ia? Eu queria ver jogo. Queria ver gol. Queria ver gente de verdade que jogasse bola. A televisão passava jogos. Eu também os via. Mas aqueles jogadores da caixinha estavão muito distantes de mim. Eu queria fazer parte do jogo e não ficar fora dele, como quem assisti. Ontem, quando sentei no Estádio Olímpico, peguei chuva e fiquei com a bunda molhada, foi do Municipal, do pai e do Croco que lembrei. Estava eu sentado, sozinho, a quilômetros de toda essa nostalgia, quando começou Grêmio X Santos. Tinha medo. Acho que só tinha medo. O Santos era o que todo mundo fala. E o Grêmio... Bom, o Grêmio é aquilo que todo gremista sabe: um sofrimento. Grêmio e facilidade são significados que não se suportam. Ainda cagado, nostálgico e com a bunda molhada, vi o Santos fazer dois gols. Pensei puta-que-o-pariu. Não queria ser platéia de tão trágico espetáculo. Pênalti pra fora e eu lá, sofrendo. Fim de primeiro tempo. Fiz uma promessa pra mim mesmo: se o Grêmio não virar, nunca mais olho uma pelada que seja. Iniciou o segundo tempo e eu crente na promessa. Mas o Grêmio fez um. Fiquei alegre, diminuímos a diferença, mas ainda perdíamos. O time fez dois. Eu e o desconhecido do meu lado nos olhamos. Vimos em nossos olhos refletidos apenas uma coisa: esperança. Meus batimentos aumentaram. Comecei a morder a gola da blusa. O Grêmio tinha que virar. Tinha que virar. Tinha que virar. E virou com um golaço. Quando vi a rede estufada, gritei. Mais 38.000 pessoas gritaram. Virei para o desconhecido do meu lado, ele gritava, levantava as mãos. Gritamos juntos, alto. Nos abraçamos, pulamos juntos. Eu via um episódio épico. E sabia que veria mais. O Grêmio fez o quarto gol. As 38.000 pessoas gritaram ainda mais alto. Eu e o desconhecido pulamos mais. Gritamos mais. O desconhecido chorava. Eu tinha o olho cheio de lágrimas. Não tinha visto nada maior. Nossa empolgação levou uma chuveirada com o terceiro gol do Santos. Mas o árbrito apitou o final. Não sei quantos sentimentos me invadiram. Eu batia palmas, gritava, aliviava o peito. Lembrava novamente do Municipal, do pai, do Croco. Pensei em todas as coisas que contaria para eles quando os visse. Concluí que só uma frase bastaria. Eu estava lá!